26 de junho de 2011

PECAR NÃO ! VALEI-ME, MEU JESUS !

Vinde, vinde com a Mãezinha, dai-me força, dai-me vida

– Jesus, quais são os miminhos que de Vós vou receber neste novo ano? Estou cheia de medo, ou mais ainda, cheia de pavor. Venha o que vier, pelo muito que eu seja ferida, humilhada e abatida, com a Vossa graça divina a tudo direi: “ Seja bem-vindo, faça-se a vontade de Jesus; sou vítima do meu amor, vítima das almas”. Confesso, meu Jesus, que o meu maior receio é a minha fraqueza, temo ofender-Vos. Confio em Vós; seja firme o meu amor e subirei alegre o meu calvário. Reparai e vede, Jesus, as ânsias que tenho; se não fôsseis Vós, tiravam-me a vida. Queria nascer agora, mas já Vos conhecer para nunca manchar o meu corpo. Queria que comigo nascesse o mundo inteiro e que todo ele já Vos conhecesse também para não se deixar manchar. Queria um coração novo, mas que sempre Vos tivesse amado para nunca deixar de Vos amar. O mesmo querer tenho para todas as criaturas, para assim Vos amarem com o mesmo amor que para mim desejo. Onde hei-de esconder-me e comigo esconder o mundo? Onde hei-de purificar-me e purificar o mundo a não ser em Vós? Escondei-me, purificai-me. Fazei-me nascer agora para a graça e para o amor e comigo nascer o mundo, mas de tal forma como se eu nem ele Vos tivesse ofendido. Não sei onde estou; não vivo neste exílio nem vivo no Céu. Parece-me viver entre ele e a terra. Fui para esta morada, comigo levei o mundo, morada sem luz, sem vida e sem nada. A minha alma rasga-se de dor, é indizível o que sinto em mim. Meu Deus, que derrota! Não tenho luz, e roubaram-me os guias de tão tremendos caminhos. Morro na escuridão, Jesus, morro desfalecida. Vinde, vinde com a Mãezinha, dai-me força, dai-me vida.

Não posso pensar nos combates do demónio, tremo de horror. Ele arma tantas ciladas para prender-me! Forma tantos assaltos à minha alma! Parece-me morrer de dor. Ouço a sua voz maldita desafiadora. E quando fica só assim! O que mais me aflige é quando ele faz o que há de pior. Na manhãzinha de ontem, preparava-me para comungar e logo a alma principiou a sentir os seus assaltos. A minha preparação foi um terrível combate. Que vergonha a minha à chegada de Jesus ao meu coração! À voz de chamada do demónio vieram muitos demónios. E o maldito dizia-me:

– Tu és o manjar mais delicioso para todos os demónios do inferno. Olha como te preparas para comungar. É assim que és uma esposa de Jesus! Não és, não és, Ele não te quer, és minha, dá-me o teu coração. Se mo deres por vontade, dou-te o mundo com todos os encantos, grandezas e prazeres.

Nesta altura, consegui renovar a Jesus a minha oferta de vítima e escrava.

– Não quero o mundo nem nada que lhe pertença, meu Jesus, o que eu quero é não pecar. Amar-Vos só e não magoar o Vosso coração divino.

O demónio redobrou de raiva. Sentia que o que ele queria era que eu lhe desse de boa vontade o meu coração e com ele o mundo. O meu corpo estava desfeito com o cansaço. O momento era grave. Ao parecer-me estar tudo perdido, não haver remédio para mim, bradei ao céu de alma e coração:

– Pecar não! Valei-me, Jesus!

Cessou a luta, mas ficaram-se na alma uns tristes efeitos. Uma tristeza tão grande por não ter pecado, parecia-me que gostava ter ofendido a Jesus. Que aflição a minha! O demónio, mais retirado, continuava raivoso; queria voltar a arrancar-me a alma e a despedaçar-me o corpo. A pouco e pouco, uma suavidade e paz apoderaram-se de mim, invadiram-me toda. Jesus fez-me sentir que tudo o que se passava na minha alma eram efeitos do demónio. Era ele que tinha pena de eu não ter pecado e estava raivoso por não o ter conseguido. Chegou logo Jesus para eu O receber; gozava uma grande paz, mas muito triste, tímida e envergonhada. Logo que O recebi, esqueci por algum tempo tão tremenda e feia luta.

Hoje, voltou o maldito com outro ataque infernal. Só Jesus vê a dor que me vai na alma. Disse-me que eram as pessoas cúmplices do meu crime, ensinou-me a pecar.

– Meu Deus, como sair disto sem Vos ofender? Só com a Vossa graça. Por misericórdia Vossa, só nos momentos da luta eu sei e compreendo as lições do mafarrico. É mais uma prova do Vosso infinito amor. Só Vós sabeis quanto eu quero amar-Vos e reparar as ofensas feitas contra o Vosso divino coração e nunca manchar o meu corpo nem a minha alma. Triste quinta-feira que me dás a sexta!

A minha alma está cansada de tantos sofrimentos, de tanta dor que a espera. Temo as horas que se aproximam, temo a morte. O céu está revoltado com tanta ingratidão da terra. Temo tudo, mas por tudo quero passar; quero morrer para dar a vida!
(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 4 de Janeiro de 1945)

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