24 de junho de 2011

EU COM JESUS EXPIREI…

“Melhor seria que a minha divina Carne fosse lançada aos cães...”


Ontem (12 de Fevereiro de 1948) de tarde foi imenso o meu sofrimento ; sentia-me por todos desprezada, caluniada, maltratada. Tinha em mim um rochedo imenso ; parecia-me que este rochedo me arrastava e continuamente me dava pontapés, ao mesmo tempo que me odiava. Sem passar por outras coisas, cheguei ao Horto ; ali fiquei aniquilada entre uma fortíssima prensa. Antes de por ela ser apertada, trespassavam-me os espinhos, dum lado ao outro, e sobre as feridas deles vinha o esmagamento. No mesmo lugar deste martírio, sobre mim, e o rochedo mundial caiu do Coração divino de Jesus um chuveiro de sangue ; senti a Sua agonia, e, dali com Ele, a ser maltratada passei à prisão. Em algumas horas da noite, lá o vi naquele escuro cárcere ; parecia um moribundo. Hoje encontrei-o no caminho do Calvário, curvado sobre a cruz. Das feridas da Sua sacrossanta Cabeça, caía tanto Sangue, que regava o chão, por onde Ele passava. A Mãezinha, de mãos cruzadas, seguia Jesus, trespassada de dor. Quase no fim da viagem, ao terminar da montanha, eu senti o esforço que Jesus sentia para caminha. O seu divino Coração parecia-me estar no meu, ofegante de cansaço. Os vestidos de Jesus, sentia-os colados ao meu corpo, ensopados em sangue. Já pregado na cruz, sentia cair ou caírem as carnes de Jesus aos bocadinhos, quase desfeitas como se fossem cinzas. A Mãezinha chegou ao Calvário mais atrasada um pouquinho do que Jesus ; juntou-se à cruz na mesma dor, na mesma posição das mãos, como quando atrás d’Ele o seguia. O meu coração e a minha alma são testemunhas de toda esta tragédia, de todo este mar de dor. O meu coração estava tão ferido e mais o feriu o brado doloroso e tristíssimo de Jesus com o pranto angustioso da Mãezinha. Quisesse ou não, tinha que sofrer com Eles. Passaram-se as horas da agonia, e eu com Jesus expirei. Senti-me morta, e muito tempo tive que esperar por Ele para me dar vida. Ao fazer-se chegar, disse-me :

― “Minha filha, minha filha, Eu vim, já estava, estou sempre no teu coração, à sombra da graça, da pureza e do amor. Eu vim, já estava, estou sempre neste paraíso de delícias. Eu vim, já estava, estou sempre neste jardim formoso, encantado com tão belas flores, sentado como Rei no trono do teu coração. Queres saber, filha querida, porque me fiz demorar assim ? Para mais te fazer sofrer, esperando-me, buscando-me, para um e outro lado, nessa ansiedade. Eu espero do teu coração puro e generoso que não Me dás uma negativa. Eu quero dor, mais dor, sempre dor e mais ainda neste tempo da minha Paixão, para mais te assemelhar a mim, e, nestes colóquios dolorosos e de ansiedade por mim, tirar grande proveito para as almas, fazer que elas venham a mim purificadas e lavadas de todo o pecado, para Eu não ter que dizer :

― “Melhor seria que a minha divina Carne fosse lançada aos cães ; melhor seria que a minha divina Carne fosse lançada às chamas para as espécies serem extinguidas, de que entrar em muitos corações a arderem em fogo de desvairadas paixões. Melhor seria que a minha Carne divina fosse lançada às feras, porque nelas produziria mais frutos, acalmando-lhes a fúria. Preferia as feras a muitos corações desordenados, furiosos pela loucura de seus crimes. Dá-me dor, sempre dor, cruz, sempre cruz, minha filha ; acode às almas, para que não tenha que lhes dizer tudo isto”.
—*—
(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 13 de Fevereiro de 1948 – Sexta-feira)

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