2 de agosto de 2011

EM MIM VIVE OUTRA VIDA - Parte I

Quero abraçar a minha cruz
Quero subir na escada do amor, e não consigo; sinto que desci ao último degrau. Jesus nada pode esperar de mim; não sei amá-Lo, não tenho forças para O amar. Quero abraçar a minha cruz, a cruz que Ele me dá, e não posso; este meu abraço é cair com ela, desfalecida, sem jamais poder levantar-me. Quero fazer tudo o que é bom e santo, e nada faço; pobre de mim! Quero ser só de Jesus, da Mãezinha e das almas, e não sou de ninguém nem para ninguém. Não sou eu, não vivo, não existo; existe, vive em mim o mundo cheio de maldade, cheio de crimes, todo revoltoso contra o Senhor; é uma vergonha de morte. Sinto-o a crucificar Jesus. Em mim vive outra vida a enfrentar este mundo. Com que dó, com que com compaixão o enfrenta, o contempla! É por forçado a castigá-lo e não quer. Esforça-se, faz tudo para não bater, não punir. Eu que não existo, sou, ou estou no meio destas duas vidas; a vida do mundo quero moderá-la, transformá-la para ser outra. E na vida de Deus, nada mais faço; imploro misericórdia, abro os braços, levanto as mãos, curvo-me diante desse poder supremo para receber todos os golpes, para ser esmagada por toda a Sua divina justiça. Meu Deus, não vivo e sou mundo, não vivo e possuo a vida de Deus, não existo e vivo para o mundo e vivo para Jesus, não sou nada e tenho que aguentar sobre mim toda a maldade humana e todo o poder, todo o amor e toda a justiça de Deus. Se eu soubesse dizer este teatro doloroso que ora sinto, ora vejo em minha alma! O amor do Céu não pode enfrentar a maldade da terra.
Apoderou-se de mim tão grande medo do demónio, que é por vezes um grande pavor. Não tenho tido combates com ele, mas sinto-o em trono, no meu coração; é rei absoluto de todo o meu ser; sou toda demónio, sou toda inferno. Repetidas vezes, sinto cheiro ao queimado; parece-me estar a cama, a roupa e eu toda a arder. Que gemidos tão dolorosos e tão horrorosos tormentos deste inferno! Não posso consentir ser eu inferno e ser demónio. E tudo isto às cegas, em trevas tão profundas; e eu sempre a correr a mergulhar-me nelas, a atirar-me, louca, para elas, como se fosse um poço sem fundo. São dolorosas estas trevas; e tremenda esta cegueira; mas não sei pelo quê, eu quero-as, tenho sede delas; quero-lhes tanto, como se elas fossem feitas só de consolação e amor. Tenho sede e não me sacia de beber nelas e sempre nelas me mergulhar. Como pode ser, meu bom Jesus, querê-las e temê-las; sofrer nelas e amá-las. Bendito sejais por tudo, meu Senhor; sou a Vossa vítima.
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(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 16 de Maio de 1947 - Sexta-feira)

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