8 de agosto de 2011

SINTO-ME MORRER, MEU JESUS

Que trapo desfeito em lepra nojenta

Não sei o que é a minha vida; estou na terra e parece-me que não estou; vivo, e, por vezes, passo as horas, como se não vivesse; sofro, e sinto passar-se o tempo, como se não sofresse. Não vivo, nunca vivi; não sofro, nunca sofri; não amo, nunca amei. É o que eu sinto. Meu Deus, meu Deus, como é que eu existo, e a parecer-me não existir? A minha vida é lodo, é lama presa, são maldades vergonhosas. Que trapo desfeito em lepra nojenta. É o que eu sou, é o que eu vejo em mim, é a vida que vive e reina em todo o meu ser. Mas tenho sede, sede de pureza, sede de graça, sede de amor, sede das almas. Tenho tantas ânsias de possuir a Jesus, de enlouquecer por Ele, que, fitando o Seu divino Coração, digo-Lhe: deixai-me, Jesus, entrar nessa chaga divina, nesse Coração de amor; quero esconder-me, desaparecer, derreter nesse fogo, como gelo que derrete com o sol e desaparece escondido na terra. Dai-me amor, Jesus; escondei-me, não quero aparecer no mundo. Toda a terra Vos dá louvor, Jesus; e eu nada Vos dou. Quando chegará o dia que eu Vos possa louvar e amar eternamente e em Vós saciar todos estes desejos e ânsias que me consomem? Sinto-me morrer, meu Jesus, por não Vos amar, por nada ter que Vos dar e por não Vos salvar as almas. Vede até onde chega o meu desfalecimento.
A noite de sábado para domingo do Divino Espírito Santo foi noite de tormento, de penoso martírio para mim. Ainda cedo, cerca das dez horas, vi à minha frente uns grandes arcos guarnecidos de medonhas serpentes; eram elas que formavam esses arcos, pois outra coisa eu não via; eram elas que os guarneciam, pendentes para um lado e para o outro, uma e outra cabeça, uma e outra cauda. As cabeças tinham os olhos vivíssimos, medonhos, cheios de malícia. Até aqui não me assustei. Passado algum tempo, sentia essas serpentes, junto de mim; parecia-me ter a cama cheia. Ouvia o seu rastejar, como se fossem pelo chão, as suas grandes escamas pegavam-me na roupa, como grandes farpas. Queria desviar-me delas, e não podia. Tinha medo, mais que medo, grande pavor. Queria luz, queria chamar a minha irmã, mas não o conseguia. Não sei se sim se não, mas não me recordo de chamar por Jesus nem pela querida Mãezinha. Juntaram-se a estas uns bichos pequenos que eu desconhecia, mas eram assustadores. Não tinha lugar na minha cama que não estivesse ocupado pelas serpentes. Senti no meu corpo uma dor tão aguda, pareceu-me que fui por uma mordida; senti que esta mordedura me envenenou toda; o veneno espalhou-se em todo o meu ser, repentinamente. Disse para mim: vou morrer já, morro envenenada; esperava a morte. De um momento para o outro, senti uma força, uma coragem, tentei esmagar uma que passava ao meu lado; calquei-a; na minha mão direita, tinha como que um ferro agudo, como se fosse uma lança. Esforcei-me por trespassar com esse ferro a cabeça da serpente. Trespassei-a, calquei-a, mas ela ficou com vida; pode retirar-se de mim. Quando esta desapareceu, já todas as outras tinham desaparecido. Eu não morri, mas todo aquele veneno ficou em comigo; e tal veneno é que tudo pode envenenar.
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(Beata Alexandrina: “Sentimentos da alma”, 30 de Maio de 1947 - Sexta-feira)

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