3 de agosto de 2011

QUE PENA EU TIVE DE JESUS

Como Jesus foi desfalecido para a prisão!


Na tarde de ontem, senti que no meu pescoço me foram lançadas grossas cordas, e todas as mãos humanas por elas me arrastaram até me conduzirem ao Horto. Esta mesma força de maldades obrigaram o Céu com toda a justiça divina a descer lá sobre mim a esmagar-me. O peso foi tanto, que me rompeu todas as veias; o sangue regou a terra, a larga distância. Ali vi Jesus com antecipado sofrimento, com o Seu divino coração aberto, a dar de beber às almas. Umas arrumavam-se Dele, com aborrecimento; desprezavam tudo, nem no sangue de Jesus queriam tocar; outros bebiam-no friamente, com indiferença, como se nada fosse; vinham outros, que o bebiam com mais amor; iam outros que bebiam com loucura e não queriam deixar de beber; veio outra que passou sobre todas, e, numa sede insaciável, bebeu, bebeu, entrou pela chaga do Coração divino de Jesus, perdeu-se Nele e não apareceu mais. Depois subi ao Horto, ou subiu-o Jesus em mim, atropelada debaixo de uma chuva de empurrões e pontapés. Eu sentia no meu corpo os vestidos colados com o sangue já seco. Na grande sala de Anás, vi a multidão que seguia Jesus, eram homens, só homens com armas e paus. Quando o malvado deu a bofetada em Jesus, foram tantas as gargalhadas e o bater de palmas, como se fosse praticada a mais bela das acções. Como Jesus se fazia pequenino e estava humilhado! O príncipe na sua vaidade, elevou-se às alturas; via-se como que adorado por quantos o rodeavam. Como Jesus foi desfalecido para a prisão! Que tristeza a Sua! E ali sozinho! Que pena eu tive de Jesus! Lembrei-me então Dele, preso nos sacrários, pois agora na terra outra prisão não tem. Fiz um sacrifício, fiz alguns actos de amor; pedi à Mãezinha para ir comigo a todos os sacrários e os entregar a Jesus por mim, e lá me deixar para sempre prisioneira com Ele.
Hoje de manhãzinha, sem nisso pensar, senti a alma ir ao cárcere, ao encontro de Jesus; encontrei-O triste, na mesma tristeza que eu senti e sem ter as belezas de Jesus; estava desfiguradíssimo, era já quase um cadáver. Desci com Ele, com Ele fui coroada de espinhos, com Ele fui açoitada, com Ele ouvi as algazarras dos que se regozijavam de O ver sofrer. Com Ele segui o Calvário. Ao cimo dele vi despirem Jesus; não O vi crucificar. Mas pouco depois, o meu corpo era a cruz, onde Ele estava pregado. Os espinhos da Sua sagrada cabeça feriam-me a mim também. Sentia o Seu divino Coração cercado de miudinhos, mas agudos espinhos, que me cingiam e feriam também o meu. Quando Jesus movia os Seus lábios, para bradar ao Pai eu sentia-os e via-os mover. Quando a esponja lhe foi por eles passada, no coração senti como Ele saboreava não por si, mas em sinal de agradecimento, como se lho tivesse feito por amor. Bem intimamente na alma se gravaram também os olhos de Jesus, quando Ele os levantava ao Pai, e via que eram uns olhares mais ternos. Perto de Jesus agonizar, fez-se noite no Calvário, e reinou um profundo silêncio; só se ouviam os Seus suspiros divinos. Quase tudo se retirou, apavorado, e já a tomarem qualquer acontecimento. Era o temor e não o amor a causa desse pavor. Ficou a Mãezinha com a Sua dor e agonia a acompanhar Jesus. Como Ela sofria e Ele com Ela! Indizível é a dor. Sofri tudo e nesta dor expirei.
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(Alexandrina de Balasar: Sentimentos da alma, 23 de Maio de 1047 - Sexta-feira)

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