Um patrão insuportável !

– Dos doze
aos catorze anos vivi com regular saúde. Minha mãe pôs-me a servir em casa de
um vizinho, mas, ao ajustar-me, tirou certas condições, como: confessar-me
todos os meses, passar as tardes dos domingos em casa, para ir à igreja e estar
sob o domínio dela, não andar de noite, etc. A combinação foi de cinco anos,
mas não estive até ao fim. O patrão era um perfeito carrasco; chamava-me nomes,
obrigava-me a trabalhar mais do que as forças que tinha. Tinha mau génio e
pouca paciência – até os animais o conheciam, porque batia-lhes e assustava-os,
sendo quase impossível chamar o gado, quando ele ia junto do gado.
Envergonhava-me sem causa, fosse diante de quem fosse, e eu sentia-me
humilhada. Apesar de estar no princípio da minha mocidade, não sentia alegria
com aquele triste viver. Um dia fui à azenha levar a fornada, mas era já
noitinha quando lá cheguei e, portanto, muito tarde quando regressei a casa,
pois gastava no caminho uma hora. Depois que cheguei a casa, ralhou-me muito,
insultou-me e até me chamou ladra. O pai dele, homem velhinho, revoltou-se
contra ele, defendeu-me, dizendo que eu não tinha tido tempo para mais. Todos
os dias vinha ficar à casa, e naquele dia, como estava melindrada – porque a
minha consciência não me acusava a mais pequena falta – queixei-me a minha mãe
que, depois de se informar do caso, não me deixou voltar, apesar de pedir muito
para que continuasse a trabalhar lá. Minha mãe, vendo que ele não cumpria o
contracto, tirou-me de servir.
Uma vez estive
das dez horas da noite às quatro da manhã na Póvoa de Varzim a tomar conta de
quatro juntas de bois, porque o patrão e um seu amigo ausentaram-se de mim; e
eu, cheia de medo, lá passei aquelas horas tristíssimas da noite. Enquanto
vigiava o gado, ia contemplando as estrelas que brilhavam muito e serviam de
minhas companheiras.
Foi aos doze anos
que me deram o cargo de catequista e cantora; trabalhava com muito gosto, tanto
num cargo como noutro, mas pelo canto posso dizer que tinha uma paixão louca.
Quando comungava
e me encontrava no meio das minhas companheiras a dar graças, sentia uma humilhação
tão grande que julgava a mais indigna de receber Jesus-Hóstia!... (Autobiografia)
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