3 de abril de 2017

UM DIA DA PAIXÃO DA ALEXANDRINA

Fiquei como caída na valeta...


O dia 31 de Janeiro de 1947 foi uma sexta-feira.
Como todas as sextas-feiras, a Alexandrina viveu a Paixão de Jesus e, viveu-a tanto ao vivo que ao lermos o seu Diário desse mesmo dia, temos a impressão nítida de ver nós mesmos o que ela descreve com tanta simplicidade.
No texto que vamos ler, as situações não se encontram na ordem exacta do que se passou em Jerusalém e no Gólgota, mas esta maneira de descreve uma situação tão dolorosa, não nos impede de compreender e de “ver” o que então se passa.
Ela começa por dizer: Fiquei como caída na valeta da estrada, não podia levantar-me nem tão pouco levantar os olhos ao Céu para os fitar em Jesus.” Isto supõe que ela estava a caminho do Calvário, visto ela dizer ainda: “Não sei por quem fui levantada, mas sentia a minha alma chorar com profunda dor.” Jesus caíra uma vez mais e a Alexandrina com ele, o que a leva a exclamar: “Que indizível vergonha!” A esta exclamação segue-se uma pergunta aflitiva: “Tem ferido o meu Jesus?”
Algumas linhas depois ela volta ao Jardim das Oliveiras, onde na realidade começou a Paixão de Cristo e começa o seu texto com uma frase que só depois do Horto será realizada: “Os meus espinhos do Horto deram princípio às ruas estreitas e tristes do Calvário.”
Serão estes espinhos que a acompanharão durante o doloroso caminho que ela vai percorrer até ao Gólgota: “Segui por entre eles, abismada na noite mais negra; neles perdi a carne e o sangue. Subi ao cimo da montanha e a mesma noite se espalhou nela. No alto da cruz que era eu e nela estava pregada.”
No alto da montanha a Alexandrina era a cruz e ao mesmo tempo estava nela pregada. Esta assemelhação utilizada por ela é frequente nos seus escritos, visto que muitas vezes ela é a Alexandrina mas também Cristo, numa estreita união mística. O mesmo se passa quando ela descreve a última Ceia, onde ela é o pão e o vinho, mas também o cálice.
Assim pregada no madeiro, ela “sentia o levantar do peito de Jesus, o seu ofegar, palpitar do coração. Sentia o brado triste, o eco agonizante dos Seus gemidos; sentia o Seu sangue divino que caía ao pé da cruz.”
Nesses momentos de agonia de morte, a Alexandrina descreve ainda: “Sentia uma dor de alma que a obrigava a chorar e a dar a vida despedaçada de dor. Eu não podia aguentar aquela dor que era de Jesus. O que Ele sofreu! Ai a dor do Calvário, a dor, a visão da maldade humana. Eu não resisti; por alguns momentos pareceu-me mesmo a minha morte ser real.”
E depois esta exclamação que exprime bem os seus sentimentos nesse momento: “Não quero pensar, porque não posso recordar o sofrimento do meu Jesus.”
Depois de viver a Paixão, como se o sofrimento não fosse suficiente, o Senhor permitiu que ela fosse tentada pelo demónio, antes de se dar a ela na Eucaristia, como ela o explica a seguir:
“Com a vinda d’Ele ao meu coração esqueci mais as maldades do demónio; pude unir-me mais a Jesus e desabafar com Ele.”
Alguns dias antes, a Alexandrina tinha-se queixado a Jesus, mas uma queixa toda ela cheia de amor e de humildade. Ouçamo-la:
Quero amar e falar do amor de Jesus e não amo, nem tão pouco sei falar do Seu divino amor. Que ânsias insuportáveis de O amar e insuportáveis desejos de uma vida mais pura e perfeita! Que grande dor não poder nem saber amar Aquele, que tanto me ama e morreu por mim, e não ter nem saber viver aquela vida de perfeição, de que Jesus é digno que eu viva. Que horror!
Constantemente cai sobre mim como que uma chuva de maldades e de crimes. Sinto-me queimada e carbonizada dum fogo indizível de paixões. Eu sofro, ó meu Deus, e sofro tanto, sei que sofro e em quase nada se resumem os meus sofrimentos. Não sei exprimir-me, não sei falar, não sei dizer nada desta dor, que me consome; tudo se apaga, tudo morre. Ai meu Deus, que trevas tão doridas!” (S. 26-12-1947)

Afonso Rocha

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