16 de setembro de 2011

QUE DOÇURA E AMOR !...

Da prisão vi o Calvário e a cruz

Na tarde de ontem, vi o Horto com toda a dor. Digo vi, mas foi a alma que senti e viu as oliveiras, que iam ser testemunhas de tanta agonia, e o lugar, e o solo que ia ser ensopado com o suor de sangue. Aquela visão deixou-me o coração a sangrar e o espírito em negras trevas. Ao anoitecer, senti o Judas com o seu rosto tão gravado em minha alma, parecia que estava ali retratado com o seu rosto desesperado, com olhares e cabelos aterradores. Ao terminar da ceia, senti como se a Mãezinha beijasse e abraçasse, pela última vez Jesus. Que doçura era a dela! Que triste foi a despedida! Oh! Como falavam um ao outro aqueles corações. Cheguei ao Horto, ali desceu sobre mim a justiça do Eterno Pai, como se fosse um fogo vingador. Tinha nas mãos o cálice, que com tal justiça transbordava fora. Veio um Anjo, em tamanho natural, e pôs-se ao lado de Jesus, que estava em mim, como que ampará-Lo. Fui presa com Jesus, e para esta prisão vieram tantos, tantos homens com paus; com seus escárnios e maus-tratos, nos acompanharam, à presença dos pontífices e à prisão! Quando Jesus estava já lá sozinho, eu sentia a Sua tristeza, enfraquecimentos e suores, que Lhe banhavam o corpo. Lá O deixei até hoje.
De manhãzinha, da prisão vi o Calvário e a cruz; segui para ele com ela. A meio do caminho, foi tão grande a queda e a descarga de açoites que sobre o meu corpo caíram! Foi tal a crueldade e o rancor com que fui arrastada pelas cordas a tão grande distância! E se eu fosse arrastada sozinha! Mas ia Jesus comigo. Que pena a minha! Crucificada na cruz, depois de muitos insultos e blasfémias, senti a esponja passar-me nos lábios e senti, antecipadamente, a lança, que abriu o lado e atravessou o Coração divino do meu Jesus. Ó dor, ó dor indizível! Depois de tudo isto, eu sentia Jesus como que a querer despregar os braços da cruz para abraçar o Calvário, abraçar o mundo, que assim O feria. Que doçura e amor saíam daquele coração divino aberto. As lágrimas da Mãezinha corriam dentro de mim. Nesta dor, neste mar de ingratidão expirei com Jesus. Ele não se apressou em vir ressuscitar-me. Ao dar-me a vida, disse-me:
― Minha filha, a cruz é sinal de predilecção; a cruz é selo dos Meus eleitos. Aqueles a quem mais amo, aqueles que escolhi para Mim, para serem grandes na terra e no Céu, embora deseje vê-los pequeninos a Meus divinos olhos, são os que mais dores, tristezas e amarguras recebem, enviadas por Mim. Assim é, Minha querida filha, porque muito te amo, porque te amo sobre todas as criaturas da terra, muito te faço sofrer. Amas sem igual, sofres sem igual. Todo aquele que quer e ama o sofrimento, quer e ama a Mim. Tu amas-Me; confia. Apago em ti as Minhas coisas, faço-te sentir que não Me amas, para mais Me ansiares, para mais Me possuíres. Se soubesses como Me alegro e consolo com as tuas ânsias de amor! Como prémio desta consolação e desempenho da tua missão sublime, tens o Meu divino amor com toda a abundância, possui-lo com a maior intensidade, que uma criatura humana pode possuí-lo; tens todas as Minhas graças, todas as Minhas riquezas, todas as maravilhas celestes. Dou-te o poder, Minha filha, dou-te esta promessa: podes a todos quantos te pedirem a fé, a graça e a conversão, dar o Meu divino amor; enfim tudo quanto for para a alma, podes, em Meu nome, dizer: tudo receberás; sim, Minha filha, por ti tudo lhes será dado. Criei-te para lhes dares a vida e a saúde das almas e não a dos corpos, não é essa a tua missão, mas isto não impede que Me peças a sua cura. Quantos por ti têm recebido a cura dos corpos e ainda receberão. Mas a das almas, a missão para que te criei, se tu soubesses, Minha querida, a transformação, as curas prodigiosas que neste Calvário, neste quartinho se tem operado! Coragem. A tua cruz dá o brilho às almas, é luz que irradia por esse mundo além. Dá-Me dor, dá-Me dor, Minha filha; se não fosse ela, oh! como Eu hoje já tinha sido ferido! A reparação que te pedi, foi pelos sacerdotes. Pedi-te a reparação para não precipitar alguns no inferno. Dá-Me dor, deixa que a tua cruz raie no mundo como raios de sol dourado. Nela vives, nela morrerás, e no Céu brilhará com todo o resplendor.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 20 de Junho de 1947 - Sexta-feira)

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