22 de julho de 2016

ALEXANDRINA FICOU VOLTADA P'RA LÁ...

Testemunho de um Bispo

S. Ex.cia R.ma D. António Dias
Bispo de Portalegre-Castelo Branco
Multidões chegam a Balazar, de perto e de longe, com dores no corpo, com feridas na alma. Nesse lugar, a crescer como grande centro da Reconciliação e da Eucaristia, ecoa o mistério de Deus e a grandeza dos simples a incutir esperança, a ensinar a grandeza da vida e o valor da cruz que converte, liberta e salva. Alexandrina de Balazar é “fruto maduro da graça e da liberdade”, é “dom de Cristo à sua Igreja e ao mundo”. É uma página viva do Evangelho que é preciso ler, reler, voltar a ler e ler outra vez. Ela descobriu o amor de Deus por si própria e pelos outros. Soube associar-se à Paixão de Cristo pela salvação do mundo. Presa na sua cama, torturada pelo sofrimento, tornou-se uma missionária apaixonada e eficiente de Cristo. A todos recebia e desafiava à santidade. A todos falava de Deus e apelava à conversão. A todos recomendava um amor concreto à Eucaristia, fonte da sua coragem e alimento da sua fé apostólica. A todos deixou um património imenso de orações a demonstrar o seu grande amor aos Sacrários de todo o mundo, sobretudo aos mais esquecidos e abandonados. Tinha um coração agradecido, cheio de amor simples, comprometido com a sorte dos outros, um amor abrangente e universal.
“Dou-vos graças, Eterno Pai, por haverdes deixado a Jesus no Santíssimo Sacramento”, rezava ela. “A minha loucura é a Eucaristia” e “eu queria que o meu coração fosse uma lâmpada sempre a arder em cada um dos vossos sacrários”. “Quanto mais doloroso é o meu martírio, mais eu Lhe quero e mais reconheço a minha miséria e o meu nada … como poderia resistir a tanto, se não fosse Jesus a sofrer, a lutar e a vencer em mim?”

“Ó meu Jesus, eu quero em cada dor que sentir, cada palpitação do meu coração, cada vez que respirar, cada segundo das horas que passar, sejam actos de amor para os Vossos Sacrários.
Eu quero que cada movimento dos meus pés, das minhas mãos, dos meus lábios, da minha língua, cada vez que abrir os meus olhos ou fechar, cada lágrima, cada sorriso, cada alegria, cada tristeza, cada tribulação, cada distracção, contrariedades ou desgostos, sejam actos de amor para os Vossos Sacrários.
Eu quero que cada letra das orações que reze, ou oiça rezar, cada palavra que pronuncie ou oiça prenunciar, que leia ou oiça ler, que escreva ou veja escrever, que conte ou oiça contar, sejam actos de amor para com os Vossos Sacrários.
Eu quero que cada beijinho que vos der, nas Vossas imagens, nas da Vossa e minha querida Mãezinha, nos Vossos santos e santas, sejam actos de amor para com os Vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu quero que cada gotinha de chuva que cai do céu para a terra, toda a água que o mundo encerra, oferecida às gotas, todas as areias do mar e tudo o que o mar contém, sejam actos de amor para os Vossos Sacrários.
Eu Vos ofereço as folhas das árvores, todos os frutos que elas possam ter, as florezinhas oferecidas folhinha a folhinha (pétalas), todos os grãozinhos de sementes e cereais que possa haver no mundo, e tudo o que contém os jardins, campos, prados e montes, ofereço tudo como actos de amor para os Vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu Vos ofereço as penas das avezinhas, o gorjeio das mesmas, os pêlos e as vozes de todos os animais, como actos de amor para os Vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu Vos ofereço o dia e anoite, o calor e o frio, o vento, a neve, a lua, o luar, o sol, a escuridão, as estrelas do firmamento, o meu dormir, o meu sonhar, como actos de amor para os Vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu Vos ofereço tudo o que o mundo encerra, todas as grandezas, riquezas e tesouros do mundo, tudo quanto se passar em mim, tudo quanto tenho o costume de oferecer-vos, tudo quanto se possa imaginar, como actos de amor para os Vossos Sacrários.
Ó Jesus, aceitai o céu, a terra e o mar, tudo, tudo quanto neles se encerra, como se esse “tudo” fosse meu e de tudo pudesse dispor e oferecer-Vos como actos de amor para os Vossos Sacrários”.

Treze anos antes de morrer, escrevia:
“Desejo ser sepultada, se for possível, com o rosto voltado para o sacrário da nossa igreja; pois como em vida sempre desejei unir-me a Jesus sacramentado e olhar para o sagrado Tabernáculo, assim também depois da minha morte desejo continuar a velá-lo, conservando-me voltada para ele. Sei que com os olhos do meu corpo já não verei a Jesus, mas desejo ser colocada naquela posição, para demonstrar o amor que sinto pela sagrada Eucaristia”.

Como seria belo se os Sacrários das nossas igrejas e capelas fossem o centro da vida familiar e das comunidades cristãs, donde tudo partisse, para onde tudo convergisse!

António Dias, Bispo de Portalegre e Castelo Branco.

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