16 de novembro de 2011

QUERO-O PARA MIM !

Eu queria o milagre, mas já orava pela boa morte do moribundo.

Era grande, muito grande a dor e a angústia da minha alma, quando assim falava a Jesus. Na minha grande aflição, repetia-Lhe muitas vezes sem pensar obter uma resposta Sua: dais-Lhe a saúde, dais, meu Amor? E Jesus, na Sua bondade infinita, muito doce e suavemente, disse:
― Quero-o para Mim, quero coroá-lo do Meu divino amor, da Minha glória.
Sempre na minha dor, sem atender ao que Jesus dizia, insisti no meu pedido. Jesus, por três vezes, repetiu-me sempre o mesmo.
Passaram-se quase dois dias; a mesma pessoa de toda estima, de novo, me recomendou o doente, já quase em agonia. Que punhaladas na meu pobre coração! Que dor, que posso dizê-lo, quase irresistível! Em vez de oferta de vítima por um mês, fiz uma de três meses.
Chorei, chorei, fiz penitência, pedi para ser posta no chão, por algum tempo, para maior sofrimento, o que me não foi concedido. Mas, esta vez, Jesus não falou, fez-se surdo; em todas as minhas súplicas de tantas horas, não tive um raiozinho de luz, tudo se me apagava e desaparecia neste mundo; nem ao menos no memento da Sagrada Comunhão eu senti outra vida. Confiava que Jesus podia fazer o milagre, mas esta confiança não tinha lugar, ficava na superfície, tudo o mais é que era realidade.
Senti no meu íntimo a noite e o silêncio da morte. Eu queria o milagre, mas já orava pela boa morte do moribundo. Que medo aterrador pela vida de sofrimento se entranhou em todo o meu ser; foi um martírio, que se veio juntar ao martírio do Horto e do Calvário. Só depois de mais de 24 horas é que eu soube que o doente tinha partido para o Céu, se bem que já assim o pensava pelo meu colóquio com Jesus.
Tenho tido tanto medo do demónio! Receei tanto os seus assaltos! Há dois dias e noites que ele andava furioso, à volta de mim: uivava raivosamente, queria assaltar-me; atormentava-me com várias coisas o meu espírito. Apesar de todo o meu receio, Jesus não permitiu que ele viesse com os seus ataques. Que conjunto de sofrimentos, meu Jesus; contudo eu sou e serei sempre a Vossa vítima!
Na tarde de ontem, principiou o meu Horto. Primeiro que tudo, veio um sol do Céu que parecia iluminar todo o mundo; veio e envolveu em si toda a terra. O Calvário, o Horto juntou-se àquele sol, formou-se tudo numa massa. Desapareceu todo o brilho; toda a maldade, todo o erro lho encobriu. Jesus, dentro de mim, fitava tudo aquilo, e, curvado sobre aquela massa mundial, chorava; choravam os olhos do Seu corpo, chorava a Sua alma Santíssima.
Logo depois, vi a cruz e Jesus nela crucificado, a derramar sangue, muito sangue que Lhe atravessava a cintura. Ao senti-Lo e vê-Lo assim, passei-me com Ele para o Horto, ali veio representar-se todo o Calvário. Que aflição! Rolávamos pelo solo duro, o qual tremia e nos fazia tremer. Falo assim porque Jesus ia comigo; sofríamos os dois. Ali mesmo, Jesus suou sangue e falava a Seu Eterno Pai e Lhe oferecia o cálice tão amargo; amargo para Jesus e amargo para mim. Foram dois Hortos. Sofria com Ele, sofria por Ele e sofria por mim. Como eu desabafei com Jesus e Lhe pedi para as consolar! Ó noite, tremenda noite! Que todo este meu sofrer seja para honra e glória do Senhor e bem das almas. Não sei, não sei traduzir a minha dor.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 24 de Outubro de 1947 - Sexta-feira)

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