20 de novembro de 2011

TRISTES E DOLOROSAS HORAS...

Eu gostava de ser cega e surda...

Continuo a sentir no meu corpo todos os sofrimentos de Jesus, todos os instrumentos da Sua divina Paixão. Tudo me martiriza e faz sangrar o coração e alma. A fome e sede de Jesus é insuportável, assim como insuportável é a fome e sede das almas. Quero o mundo, quero o mundo, quero dá-lo ao meu Jesus.
Foram quatro os combates que tive com o demónio, foram combates do inferno. Tinha mão para tudo, menos para me benzer e afastar de mim o maldito. O corpo foi um banho de suor, o coração uma máquina estrondosa. Sim, eu consegui chamar por Jesus e pela bendita Mãezinha, mas o que eu não consegui, ou me pareceu não conseguir foi chamá-Los a tempo. Eu gostava de ser cega e surda, para não ver nem ouvir os ensinamentos do maldito e para me não aterrorizar com o que ele diz contra Jesus. Mas, se assim fosse, não podia combater nem sofrer, não poderia ser vítima do meu Senhor.
A tarde de ontem para mim pareceu-me não ter sol, ou melhor nunca o ter conhecido. Em tão grande cegueira abafada pelo peso da dor, os meus olhos quase não paravam, fitavam-se ora em Jesus, ora na Mãezinha, únicas forças do meu martírio. Comecei a ver e a sentir uma luz brilhante, a vida do Céu a manchar-se, a envolver-se com a terra. Era Jesus que vinha a sofrer. Principiei a senti-Lo a meter-se, a curvar-se debaixo do peso esmagador da humanidade. Ele chorava, gemia, eram profundos os Seus suspiros, mas eram só para Ele, encobria-os aos Seus apóstolos, sofria sozinho. Pensava para mim: como Jesus me ensina a sofrer; quero sofrer à Sua semelhança. Sim, agora mais que nunca, só com Ele quero desabafar. Uni, meu Jesus, aos Vossos os meus sofrimentos e fazei que eu aguente com tudo.
Avizinhavam-se os sofrimentos do Horto e toda a montanha do Calvário pesava, cada vez mais, sobre Jesus e sobre mim, pobre e indigna companheira Sua. Um painel grandiosíssimo, ou à semelhança dele mostrava claramente quanto Jesus ia passar. Os Seus suspiros eram cada vez mais profundos e abafadiços e assim eram para mim também. Triste quinta-feira! Triste e doloroso Horto! Tristes e dolorosas horas as de agonia de Jesus! Parecia-me que os meus vestidos eram de espinhos que me feriam e atingiam todo o corpo e alma. Com Jesus tudo sofri; com Ele suei sangue, com Ele por Judas fui beijada, com Ele vi todos os soldados caírem por terra e com Ele fui presa e segui para a prisão.
Na madrugada de hoje, de noite ainda, cansada, desfalecida por muito sofrer, à prisão O fui encontrar desfalecido também. De cabeça inclinada sobre a Dele, ali fiquei naquele escuro cárcere, até com Ele aos tribunais ser levada. Esperava o povo ver Jesus, em grande multidão, como para um festejo; queria ouvir a sentença e regozijarem-se, ao ouvir condená-Lo. Tomei a cruz, e com ela segui o Calvário, e com Ele me senti nela crucificada. Em todo o tempo da agonia, fiquei como se o sol se escurecesse; fez-se noite, tremenda noite na montanha. De longe a longe, senti no meu coração moverem-se os lábios de Jesus, quando os Seus olhos divinos se entreabriam a fitar o Céu. E constantemente ondas pretas furiosas, batiam contra a cruz e contra o corpo de Jesus e o meu que estavam nela. Essas ondas desfaziam-me as carnes que ficavam numa massa se sangue. E assim me senti morrer no maior abandono, na maior escuridão.


(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 7 de Novembro de 1947 - Sexta-feira)

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