sexta-feira, maio 14, 2021

VIVA JESUS! VIVA MARIA!

O meu coração continua como a lâmpada amortecida


Eu quisera dizer quanto a minha alma tem sofrido, mas apenas tenho experimentado, e não sei explicar. Horrorosos sofrimentos passaram por mim! Nunca pensei poder sofrer tanto. Hoje sinto-me mais aliviada um bocadinho, mais redobrada a minha confiança em Jesus e na Mãezinha, com mais forças para combater o inferno que se tem revoltado contra mim.

O meu coração continua como a lâmpada amortecida. De longe a longe vai deitando umas gotazinhas de sangue que a Humanidade ainda vem aproveitá-las. Cada uma delas parece ser a última. Sinto que ele ainda está preso à vida divina por um fiozinho comparado a um arame fininho que à mais pequenina coisa pode partir.

No meu corpo já não sinto as aves; parece-me já não existir dele nem sequer o mais pequenino bocado de cinza.

Sinto que quem me sustenta a vida do meu coração é Jesus, só Jesus, parecendo-me estar ligada à Pátria celeste por aquele fiozinho.

Viva Jesus! Viva Maria! Viva a Santíssima Trindade a quem amo tanto! (Alexandrina Maria da Costa: 14 de Maio de 1942).

quinta-feira, maio 13, 2021

PASSEI MUITO TEMPO EM FÁTIMA

O meu coração desfazia-se


Nunca ano nenhum, no dia 13 de cada mês, passei tanto em Fátima como no dia 13 deste mês de Maio. Não sei pelo quê. O meu coração desfazia-se e desfaz-se ainda em agradecimento diante da Mãezinha querida. Passo lá tanto tempo! Quero amá-la, louvá-la e não cessar de agradecer-Lhe a paz tão desejada. Seria esse o motivo, porque Jesus me uniu tanto desta vez às manifestações da Cova da Iria e me fez sentir todo aquele entusiasmo e preces fervorosas de tantos corações agradecidos? Bendito seja o Senhor, que Ele continue a dispensar à terra a Sua paz divina e não demore a dá-la às nações que a não têm ainda, para que em toda a humanidade reine Ele, só Ele. Não passou ainda um só dia que não rezasse a Magnificat em acção de graças e como prova do meu agradecimento.

— Mas, meu Deus, como tenho feito eu tudo isto? Na maior pobreza e maior miséria. Agradeço sem um raiozinho de luz, agradeço esmagada debaixo do céu das trevas. (Alexandrina Maria da Costa: 15 de Maio de 1945).

VI A MÃEZINHA DE FÁTIMA

Senti que Ela veio mostrar-me que não estava sozinha


Foi de noite, não sei a hora, vi a meu lado a Mãezinha de Fátima; não se demorou, não me falou. Senti que Ela veio mostrar-me que não estava sozinha, que Ela estava a meu lado. Libertada destas tristes amarguras, entrou em mim uma suavidade, pude adormecer. Os homens podem fazer tudo, podem sentenciar-me conforme os seus juízos, o que não podem é priva-me destas visões, privarem-me de amar a Jesus, tirarem-me a minha união com Ele, nem arrancarem-me do meu coração a união com aquelas que Ele, e só Ele, permitiu, que Ele e só Ele colocou neste coração tão pequenino no amor, mas tão grande nos desejos de o amar e nas ânsias de só a Ele pertencer. Todos estes sofrimentos, que só Jesus conhece a dor imensa que me causam, só Ele os vê e compreende deveras, fazem nascer dentro em mim novos desejos, profundas ânsias se só para Jesus viver, de só a Ele pertencer e a Ele só amar. O peso da dor faz rebentar em meu coração tão vivos e amantes desejos de caminhar por entre espinhos e procurar Jesus e as almas como o trovão com o seu estrondo estremecedor faz rebentar as águas na profundidade da terra. Sofro ? Não importa. Amo Jesus : isso me basta. Pedi para me colocarem sobre o meu peito, amparada pela minha mão a açucena que me foi oferecida para levar para a sepultura. Senti-me tão alegre e ao mesmo tempo umas saudades quase insuportáveis de ver chegado esse dia, o dia da minha verdadeira felicidade, da minha verdadeira vida. (Alexandrina Maria da Costa: 21-11-1944)

VISÃO DE FÁTIMA

O meu coração batia fortemente


Na manhãzinha do dia 13, quando estava a rezar à Mãezinha “Avé Maria” com jaculatória por várias intenções, vi a Mãezinha de Fátima em tamanho natural elevada a grande altura, suspensa no ar. Em baixo à volta dela um universo de povo para quem ela se inclinava e olhava com todo o carinho. O meu coração parecia não caber dentro do peito; batia com tanta força! Senti-me atraída para Ela, pareceu-me sair fora de mim e ser transportada para outra região e já não vivia na terra. Não sei o tempo que me demorei lá. (Alexandrina Maria da Costa: 13-12-1942)

PORTUGAL INGRATO

Fátima, Fátima! Calvário, calvário!


― Calvário ditoso, calvário prodigioso, calvário transformado num paraíso de Jesus na terra. Desci, desci, minha filha, desci, desci, esposa querida, desci do Céu. Entrei no teu coração, transformei-o num céu. Eu quero, eu quero fortalecer-te. Eu quero falar pelos teus lábios. Eu quero dizer-te as minhas alegrias e tristezas. Alegro-me no teu coração. Alegro-me com a reparação que me dás. Eu posso, sim, eu posso apresentar a meu eterno Pai grande reparação. Eu posso, sim, eu posso colocar sob a sua divina mão uma escora firme para a sustentar. Ó Portugal ingrato, ó mundo cruel, o que seria de ti sem a vítima deste calvário!... Portugal ingrato! Portugal, quantas graças tens recebido do teu Deus?! Fátima, Fátima! Calvário, calvário! Este ditoso calvário, meios para ti de grande reparação. Estou triste, estou triste. Portugal ingrato! Estou triste, muito triste! O mundo cruel! Nada mais posso fazer. Fiz tudo, fiz tudo para a salvação dos filhos do meu sangue.

― Ó Jesus, ó Jesus, estou certa, confio. Tudo fizestes, tudo fareis e o mundo será salvo. Portugal será grato, sempre grato ao Vosso Divino Coração. Sou Vossa vítima, Jesus. É a Vós que eu abraço, é a Vós que eu me prendo. Só convosco eu serei forte, só com a Vossa graça vencerei. Ai, meu Jesus, sou eu, bem sabeis que sou eu, a mais pobrezinha, a mais indigna das Vossa filhas, mas bem sabeis que, apesar de pobre e miserável, com a Vossa graça também serei eu a sofrer pelo Vosso amor e pelas almas. Com a Vossa graça sempre repetirei: Jesus, sou a Vossa vítima! Jesus, sou a Vossa vítima! Jesus, sou a Vossa vítima! (Alexandrina Maria da Costa: 09-10-1953)

DESEJOS DE SER CURADA

Alexandrina deseja ir a Fátima


– Como me falassem dos milagres de Fátima e sabendo eu, em 1928, que várias pessoas iam à Cova da Iria, nasceram em mim desejos de ir também. O médico assistente e o meu pároco não me deixaram, dizendo que era impossível ir tão longe, se eu mal consentia que me tocassem na cama. O Sr. Abade dizia-me que pedisse daqui a acura e que, depois, iria a Nossa Senhora de Fátima agradecer tão grande graça. O médico prometeu passar o atestado se o milagre se desse.

Nesse ano, o Sr. Abade foi a Fátima e perguntou-me o que queria de lá. Pedi-lhe que me trouxesse uma medalha, mas ele ofereceu-me um terço, uma medalha, o «Manual de Peregrino» e alguma água de Fátima. Sua Reverência aconselhou-me a fazer uma novena a Nossa Senhora e a beber água de Fátima com o fim de ser curada. Não fiz uma, mas muitas. Cantava muito e dizia às pessoas vizinhas que me visitavam: se um dia me vissem pelo caminho e me ouvissem cantar, era eu que ia agradecer a Nossa Senhora o benefício que recebia. Pensava que seria curada, mas enganei-me; era a minha grande confiança na Mãezinha e em Jesus que me fazia falar. Pensava: se for curada, vou logo, logo para religiosa, pois tinha medo de viver no mundo. Nem sequer visitava a minha família. Queria ser missionária, para baptizar pretinhos e salvar almas a Jesus.

Como não consegui nada, morreram os meus desejos de ser curada e para sempre, sentindo cada vez mais ânsias de amor ao sofrimento e de só pensar em Jesus. (Alexandrina Maria da Costa: Autobiografia)

quarta-feira, maio 12, 2021

VISITA DO CÓNEGO MANUEL VILAR

Segundo exame da Santa Sé


– Em 5 de Dezembro de 1939, recebi a visita do nosso Sr. Abade, acompanhado pelo Ex.mo e Rev.mo Senhor Cónego Vilar que, depois de me ser apresentado, ficou a sós comigo. Falámos de várias coisas de Nosso Senhor cerca de duas horas, para depois entrarmos verdadeiramente no assunto que o trouxe aqui. Sua Reverência disse-me assim: «A Alexandrina deve estranhar a minha visita, não me conhece…»

Sorri-me e respondi-lhe: «Eu sei com certeza ao que V. Reverência vem aqui.» Ao que ele disse: «Diga, diga, Alexandrina.» Então disse eu: «Vem de mando da Santa Sé», pois era o que eu sentia na minha alma nesse momento. Sua Reverência confirmou, dizendo: «É isso mesmo.» E apresentou os documentos que tinham vindo de Roma. Fez-me várias perguntas a que respondi. Não falei da crucifixão, mas falou-me ele, dizendo: «Parece que há mais qualquer coisa que se passa há meses…», apontando a Paixão, mostrando desejo de vir assistir, como veio logo na primeira sexta-feira seguinte.

Falando disto ao meu Director espiritual, este aconselhou-me a que lhe falasse com toda a franqueza. Visitou-me quatro vezes, mas só duas foram obrigatórias. Se não me engano, logo da primeira vez disse-me: «Olhe, Alexandrina, gostava de há muito a ter conhecido, mas não queria ter vindo como vim.» Confiou-me o segredo da sua partida para Roma, pois naquela ocasião só era sabedor o Sr. Arcebispo.

Como me sentia muito bem a conversar com ele e como tinha toda a licença do meu Director espiritual, falámos muito, mesmo muito de Jesus, porque sentia-me como que mergulhada num abismo de santidade e sabedoria, o que raras vezes me acontece, mesmo com sacerdotes. Disse-lhe que não falava assim com outros senhores Padres, porque não era feitio meu, mas sim pela confiança que nele sentia. Sua Reverência respondeu-me: «Faz muito bem, Alexandrina, em nada dizer porque, se lhes dissesse, eles não a compreenderiam.»

Chorei quando Sua Reverência se despediu de mim na partida para Roma. Prometeu escrever-me de lá, dizendo-me que ficaria a ser a sua intercessora na terra. Recebi algumas cartas dele em que mostrava ter em mim inteira confiança. Respondi-lhe, e ajudámo-nos mutuamente com orações a Nosso Senhor. (Alexandrina Maria da Costa: Autobiografia)

Imagem: O Cónego Manuel Vilar que se tornou amigo da Alexandrina.

DEVOÇÃO ENSINADA POR JESUS

Primeiras 6 Quintas-feiras de cada mês


Promessa feita à Beata Alexandrina em 25 de Fevereiro de 1949:

Minha filha, minha esposa querida, faz que Eu seja amado, consolado e reparado na minha Eucaristia.

Diz em meu nome que:

 

Todos aqueles que comungarem bem, com sinceridade e humildade, fervor e amor em seis primeiras quintas-feiras seguidas e junto do meu sacrário passarem uma hora de adoração e íntima união comigo, lhes prometo o Céu.

 

É para honrarem pela Eucaristia as minhas santas Chagas, honrando primeiro a do meu sagrado ombro tão pouco lembrada.

Quem isto fizer, quem às santas Chagas juntar as dores da minha Bendita Mãe e em nome delas nos pedir graças, quer espirituais, quer corporais, eu lhas prometo, a não ser que sejam de prejuízo à sua alma.

No momento da morte trarei comigo minha Mãe Santíssima para defendê-lo.

ORAÇÃO ENSINADA POR JESUS

Oração eucarística


Diz às almas que Me amam que vivam unidas a Mim durante o seu trabalho. Nas suas casas, seja de dia seja de noite, ajoelhem-se muitas vezes em espírito e de cabeça inclinada digam:

 

“Jesus, eu Vos adoro em todo o lugar onde habitais sacramentado;
Faço-Vos companhia pelos que Vos desprezam,
Amo-vos pelos que não Vos amam;
Desagravo-Vos pelos que Vos ofendem.
Jesus, vinde ao meu coração!”

 

Estes momentos serão para Mim de grande alegria e consolação.

Que crimes se cometem contra Mim na Eucaristia! (Sentimentos da alma: 2 de Outubro de 1948).

COMO UMA LÂMPADA AMORTECIDA

Tal é hoje o estado do meu coração


Hoje a vida divina do meu coração comparo-a a uma lâmpada amortecida que a cada momento parece apagar-se. Já não nasce o sangue senão de longe a longe uma gota, que já mal se pode beber. Eu hoje dizia a Nosso Senhor assim:

— Meu Jesus, Mãezinha, vede a aridez da minha alma, vede o abandono que ela sente do Céu e da terra. Lançai sobre mim vossos divinos olhares de compaixão. Acudi-me, acudi-me, não me deixeis morrer de susto no meio das trevas. A minha alma está tímida com os assaltos do demónio. Quer acusar-me e lançar-me ao rosto tudo o que há de pior, apresentando-me a minha vida inteira cheia de enganos.

Jesus não me deixa por muito tempo combater as dúvidas, mas ele enraivecido enche-me de pavor. Se eu pudesse ter um sacerdote sempre junto de mim! É o meu Paizinho quem eu quero, pois foi esse que Jesus me prometeu e que os homens me tiraram.

As aves sínto-as já nos pés, mas como que aborrecidas por não encontrarem que comer. Vão mexendo e remexendo as poucas cinzas que me restam. Ai, o dia mais feliz da minha vida é o dia da minha morte! (Alexandrina Maria da Costa: 12 de Maio de 1942)

terça-feira, maio 11, 2021

JESUS FEZ-SE MÉDICO DO MEU CORAÇÃO

Minha filha, são assim as almas grandes

Jesus fez a troca, senti-me logo outra.


— Agora, sim, meu Jesus, agora sim, sei que não sou eu. O Vosso Divino Coração encheu-me, deu-me tudo. Estou confundida, não sei como consolar-Vos nem como curar a Vossa chaga divina. Aceitai os meus desejos, aceitai tudo o que de mim podeis e quereis receber. Se eu soubesse amar-Vos! Se eu soubesse servir-Vos!

Enquanto eu dizia isto a Jesus, fez-se Ele médico do meu coração; injectou-o da Sua ternura, encheu-o do Seu amor. Fez de novo a troca, deu-me o meu, entreguei-Lhe o d’Ele. Ao entregá-lo em Suas divinas mãos, acompanhava-o a vergonha e a pena de não lhe curar aquela chaga tão profunda, para sempre, de não o amar como o queria amar. Oh! que ternura a minha por Jesus!

— Minha filha, são assim as almas grandes, sentem nada fazerem ao meu Divino Coração. Se soubesses a alegria que me dás! Se soubesses com a tua pequenez, com a tua profunda miséria, assim mesmo como te sentes, o proveito que tiro para as almas! Logo depois da tua morte vou fazer conhecer ao mundo a heroicidade do teu amor, e como foste comigo grande e poderosa. Por ti a terra será enriquecida, por ti sempre os pecadores serão salvos. Missão sublime, missão sagrada a que te destinei. Coragem sempre, minha pomba bela. Triunfa a minha divina causa, e com ela triunfam os que contigo são humilhados.

— Obrigada, meu Jesus. (Alexandrina Maria da Costa: 11-05-1945)

AMAR A BEATA ALEXANDRINA

O amor é próprio ao ser humano!


Nós amamos os nossos pais, depois as nossas esposas ou maridos, depois ainda os nossos filhos. Este amor é próprio a cada um destes estados e, melhor ainda: é exclusivo.

Sobre o ponto de vista espiritual esta definição permanece:

Devemos amar a Deus sobre todas as coisas, de maneira exclusiva. Amamos os santos e santas de Deus de igual modo e sempre de maneira exclusiva, o que significa que não amamos um santo mais do que outro, mas que o amamos porque nele (ou nela) encontrámos um ponto comum connosco, mais particular do que com outros.

Amar não é simples, porque o ser humano nunca poderá amar como Deus nos ama nem mesmo como nos amam os santos e santas de Deus, porque o amor espiritual tem outra dimensão que só compreenderemos na eternidade.

Amar a Beata Alexandrina é trazê-la sempre presente no nosso coração, considera-la como a nossa “irmã mais velha”, à qual devemos respeito e até mesmo obediência.

Como o coração só fala bem daquilo que conhece ou sente, para mim, falar da Beata Alexandrina é um prazer que nem eu mesmo explico; é desejar que ela seja amada e conhecida de todos, mesmo ao custo de dissabores e de perseguições, mais ou menos veladas.

Se vos dissesse quanto já sofri por amá-la sinceramente, talvez nem acreditásseis. Isto, tanto da parte do diabo, como da parte dos homens.

Quando tudo parece “funcionar” bem, logo o diabo, ou “manquinho”, como o chamava a Alexandrina, intervém e “fabrica” um problema para impedir a acção que quero empreender. Para isso serve-se, não só das suas habituais artimanhas, mas instiga os homens para melhor levar a cabo os seus malignos intentos.

Se vos disser que já me chamaram “ladrão” por utilizar os textos da Beata, creio que teríeis dificuldade em acreditar, e portanto já aconteceu. Por “AMOR” à Alexandrina não persegui juridicamente os “atrevidos”, mas o meu coração ficou triste, mas não revoltado, porque sei que os homens muitas vezes vão (talvez inconscientemente!) para além dos seus pensamentos…

Amar a Alexandrina, que considero como a minha irmã mais velha, é para mim um dever, para além do prazer que me procura esta devoção que eu não procurei mas que se impôs a mim um certo dia de 1985.

Amar a Alexandrina tornou-se para mim uma “obrigação” voluntária de a servir, de a amar e de a fazer amada pelo maior número possível de pessoas, porque ela é na verdade um “anjo de Deus”, uma “fonte de água cristalina” onde cada um de nós pode beber e saciar a sede de Deus.

E, porque assim é, direi hoje, amanhã e depois, que nada nem ninguém me impedirá de a amar, de a divulgar, visto que Jesus disse que queria que ela fosse conhecida e amada no mundo inteiro.

«Em breve, será conhecida, em breve, será espalhada a tua dor, o teu amor inigualável.» (S. 12-01-1945)

«A tua vida é toda a minha vida. Oh, como Eu quero que ela se leia e compreenda!» (S. 04-06-1954)

«Quero, minha filha, tenho pressa, muita pressa que a tua vida seja conhecida; o mundo necessita disso.» (S. 02-03-1945)

Obrigado, Senhor, por me terdes dado a ocasião de conhecer a Alexandrina e obrigado por tudo o que recebi de Vós, pela intercessão dela. Obrigado por este amor que eu não conhecia!

Aqui me tendes, Senhor. Que em mim se faça a vossa santíssima Vontade, qualquer que ela seja.

Afonso Rocha

ALEXANDRINA E FÁTIMA

«Já reflectiste que faço do teu quarto a Cova de Iria?»


Nos escritos da Alexandrina encontramos várias alusões a Fátima, ou melhor, a Nossa Senhora de Fátima.

A mais antiga que conhecemos encontra-se na sua autobiografia e situa-se após o salto que deu pela janela, para escapar aos ardores de um homem que a perseguia.

Este salto foi o acidente que causou a sua paralisia, que durou até à sua morte.

Sendo ainda jovem, gostaria de curar e de viver uma vida feliz como todas as jovens da sua idade, mas não era esse o plano de Deus sobre ela.

Ouçamo-la explicar:

«Como me falassem dos milagres de Fátima e sabendo eu, em 1928, que várias pessoas iam à Cova da Iria, nasceram em mim desejos de ir também. O médico assistente e o meu pároco não me deixaram, dizendo que era impossível ir tão longe, se eu mal consentia que me tocassem na cama. O Sr. Abade dizia-me que pedisse daqui a acura e que, depois, iria a Nossa Senhora de Fátima agradecer tão grande graça. O médico prometeu passar o atestado se o milagre se desse.

Nesse ano, o Sr. Abade foi a Fátima e perguntou-me o que queria de lá. Pedi-lhe que me trouxesse uma medalha, mas ele ofereceu-me um terço, uma medalha, o «Manual de Peregrino» e alguma água de Fátima. Sua Reverência aconselhou-me a fazer uma novena a Nossa Senhora e a beber água de Fátima com o fim de ser curada. Não fiz uma, mas muitas. Cantava muito e dizia às pessoas vizinhas que me visitavam: se um dia me vissem pelo caminho e me ouvissem cantar, era eu que ia agradecer a Nossa Senhora o benefício que recebia. Pensava que seria curada, mas enganei-me; era a minha grande confiança na Mãezinha e em Jesus que me fazia falar.» (Autobiografia)

Mais tarde, já acamada para sempre, teve, em diversas ocasiões, a felicidade de receber a visita da Mãe de Deus e nossa Mãe.

No dia 13 de Dezembro de 1942, ela escreveu no seu Diário:

«Na manhãzinha do dia 13, quando estava a rezar à Mãezinha “Avé Maria” com jaculatória por várias intenções, vi a Mãezinha de Fátima em tamanho natural elevada a grande altura, suspensa no ar. Em baixo à volta dela um universo de povo para quem ela se inclinava e olhava com todo o carinho.»

Aqui a visão da multidão reunida na Cova da Iria é evidente, e portanto, ela nunca lá foi.

Dois anos mais tarde, nova visita de Nossa Senhora de Fátima, também silenciosa:

«Foi de noite, não sei a hora, vi a meu lado a Mãezinha de Fátima; não se demorou, não me falou. Senti que Ela veio mostrar-me que não estava sozinha, que Ela estava a meu lado.» (S. 21-11-1944)

Este amor da Mãezinha para com ela fazia-a feliz e estimulava-a na sua devoção a Maria, a sua querida “Mãezinha”, como ela gostava de a chamar.

Em 1945, escrevendo sobre o seu amor à Virgem de Fátima e ao dia 13 do mesmo mês, ela explica:

«Nunca ano nenhum, no dia 13 de cada mês, passei tanto em Fátima como no dia 13 deste mês de Maio. Não sei pelo quê. O meu coração desfazia-se e desfaz-se ainda em agradecimento diante da Mãezinha querida. Passo lá tanto tempo!» (S. 15-05-1945)

A Virgem de Fátima que até aqui se apresentara a ela silenciosa, vai desta vez falar e frisar as suas visitas ao quarto da “Doentinha de Balasar”. Ouçamos a Mãe de Deus:

«Já reflectiste que faço do teu quarto a Cova de Iria? Já reflectiste que, como em Fátima, aqui desço todos os meses, não falando nas vezes que, como hoje, venho a convite do Meu Filho? É para te dar conforto e encorajar.» (S. 13-6-1947)

Podemos pôr esta interrogação da Virgem Maria — «Já reflectiste que faço do teu quarto a Cova de Iria?» ao lado de outra que lhe foi dirigida por Jesus, também a respeito daquele quarto abençoado: «O teu quarto é o templo das maravilhas prodigiosas do Senhor.» (S. 14-11-1947)

Sabendo que o seu director espiritual estava muitas vezes presente em Fátima — antes de ser exilado para o Brasil — ela tomara o hábito de ouvir as transmissões radiofónicas em directo da basílica da Cova de Iria.

Em 17 de Outubro de 1952, ela escreve no seu Diário — os “Sentimentos da alma” — o que a seguir se pode ler:

«Ao ouvir, no dia 13, a transmissão de Fátima, às invocações não desesperei, porque Jesus e a Mãezinha velaram por mim. Quando ouvia “Meu Deus, creio em Vós, mas aumentai a minha Fé” parecia-me que dentro de mim se repetia: não creio, não creio, não tenho Fé. O meu sentimento era de que não havia ninguém no mundo como eu. Não tinha força para chamar por Jesus e pela Mãezinha.»

Em Fátima a Virgem Maria, tinha avisado amorosamente aos Pastorinhos: «Se fizerem o que eu digo…» Mas nem o mundo nem Portugal fizeram o que Ela disse, por isso mesmo Jesus, dirigindo-se ao mundo e a Portugal, queixa-se amargamente por não terem ouvido os conselhos da Sua Santíssima Mãe:

«Disse-me Jesus:

Ó Portugal ingrato, ó mundo cruel, o que seria de ti sem a vítima deste calvário!... Portugal ingrato! Portugal, quantas graças tens recebido do teu Deus?! Fátima, Fátima! Calvário, calvário! Este ditoso calvário, meios para ti de grande reparação. Estou triste, estou triste. Portugal ingrato! Estou triste, muito triste! O mundo cruel! Nada mais posso fazer. Fiz tudo, fiz tudo para a salvação dos filhos do meu sangue.» (S. 09-10-1953)

Poderia alongar estas linhas com outros exemplos não só da devoção votada por Alexandrina a Nossa Senhora de Fátima, como também relatando outras visitas numerosas da Virgem Maria ao “Calvário de Balasar”, como Ela mesma o sublinha: «Já reflectiste que faço do teu quarto a Cova de Iria?»

TROCA DE CORAÇÕES

 Jesus fez a troca, senti-me logo outra


— Meu Jesus, permiti que a minha confiança em Vós vá tão longe quanto pode ir, para que eu possa convencer-me sempre, sempre que não Vos ofendo. Não permitais, meu doce amor, que eu duvide um só momento da Vossa palavra divina.

Cheguei, mas com muito custo, ao cimo do calvário. Cravada na cruz, com o coração em sangue, bradava incessantemente socorro ao Eterno Pai. O coração voava para Ele, mas era repelido, parecia não ser aceite. Nem na cruz era poupado o meu corpo; os olhos da minha alma viam todo o mundo a vir feri-lo. Via todo o mundo a penetrar na minha cabeça grande número de agudos espinhos. Que grande dor me faziam! Toda a humanidade maltratava e esmagava o meu coração, deixando-me em agonia mortal. Veio Jesus ao encontro desta dor e agonia. Demorava-se: fez-me esperar muito tempo. Esperei resignada.

— O que quiserdes, meu Jesus, a minha vontade é a Vossa.

— Minha filha, prenda valiosíssima que eu dei ao mundo. Quanto ele tem de agradecer-me! Tu és a depositária, és o cofre das riquezas e dons divinos. És a mensageira da paz, de quanto a humanidade te é devedora. Coloquei-te no meio dela, és um centro de virtudes, és um centro de flores cândidas e puras. És a vida das almas, és a nova Eucaristia delas. Purifica-as dos seus defeitos, lava-as dos seus crimes, prepara-las para mim que sou a verdadeira Eucaristia. És a pastorinha que conduz o rebanho ao Pastor Divino. Tu és o porta-voz de Jesus para o Santo Padre. Diz, minha filha, ele que fale à humanidade inteira. Ele, que é o pai da terra, que peça em nome do Pai do Céu. Quero uma reconciliação firme e sincera, quero um mundo novo de pureza e de amor. Penitência, penitência e oração. Penitência no lugar dos prazeres, oração em vez das vaidades e passatempos ilícitos. União comigo, amor puro, amor abrasado ao meu Divino Coração. Se houver, minha filha, a verdadeira transformação, receberá o mundo inúmeras graças, uma chuva de bênçãos cai sobre ele. Mas, ai dele, se assim não for. Aceita, filhinha amada, o meu Divino Coração, consola-o, cura-lhe tão profunda chaga. Dá-me o teu para o confortar e para lhe dar vida.

Jesus fez a troca, senti-me logo outra. (Alexandrina Maria da Costa: 11-05-1945)

QUE ESCURIDÃO ASSUSTADORA!

Que abismo sem fundo!


Se os dias passados foram um contínuo mergulhar de trevas, hoje é mais, ainda muito mais.

— Meu Deus, como pode aumentar isto? De onde vêm elas?

É por entre esta escuridão medonha, aterradora, que eu caminho, de cruz sobre os ombros, mãos atadas e o corpo todo chagado. Ouço o sangue que rega a terra, saído das minhas veias. Ouço o estalar dos ossos ao ser arrastada pelas cordas. Dores sufocantes tiram-me a vida. Não há quem se compadeça do meu penar. E eu perdi Jesus, ou sinto que O perdi. Como poderei viver sem Ele? O que será de mim? Veio o demónio com um ataque violentíssimo. De manhãzinha cedo, principiei a sentir que o meu corpo não estava completo, como se uma podridão tivesse desfeito parte dele. Causou-me e causa ainda grande dor e impressão. Mal eu pensava que eram manhas do demónio! Foi o meio de que ele se serviu para horas depois me afligir. Aumentou a sua malícia e artes, como senhor e habitador de mim. Principiou a dizer-me:

— Olha como tu estás! A maldade dos teus crimes apodreceu o teu corpo.

Uma chuva de nomes e coisas feias caiu sobre mim.

— Jesus, Mãezinha, não quero pecar, sou a Vossa vítima.

Que medo, que horror! Parecia-me pecar e querer pecar. Sentia pena por não satisfazer mais os meus desejos desordenados. Tremendo horror! Levantava os meus olhos para a Mãezinha e para Jesus. Um abismo aterrador se colocou à frente dos meus olhares. Que escuridão assustadora! Que abismo sem fundo! E eu cega de maldades e desejos pecaminosos. Fiquei louca, preocupada com este viver. Veio Jesus, o remédio da minha alma.

— Minha filha, és cândida, és pura, pureza virginal, candura celeste. Repara! Vê aqueles traços doirados, aquelas flores luzentes que passam naquele abismo. É a tua pureza, é a tua reparação; reparação que me consola, pureza que pouco a pouco vai purificando as almas que nele estão. É pureza que passa no lodo e na lama sem se manchar e à sua passagem deixa seu brilho para iluminar e arrancar das trevas as almas que nele estão, trevas do pecado, trevas infernais. Não são trevas de amor, trevas de reparação, trevas enviadas por mim. Coragem, minha pura, minha bela. Não pecaste. (Alexandrina Maria da Costa: 11 de Maio de 1945).

segunda-feira, maio 10, 2021

VI JESUS MUITO BRILHANTE

Parecia-me não ser sonho


Quantas vezes a este fogo vem juntar-se a grande confusão, o grande martírio de não resistir aos ardores de tal fogo sem panos de água fria. Sofro ao ver-me rodeada das pessoas e ter de manifestar e dar a conhecer este fogo que me abrasa. Confio, se o meu Jesus me der força, a tudo resisto e com a Sua graça escondo. Muitas vezes, durante as noites, tenho visto Jesus, a Mãezinha e S. José. Jesus não aparece sempre duma forma. Raras vezes o tenho dito, porque só o fazia quando tinha a certeza de que não era sonho; de contrário, calava-me e nada dizia, com receio de não dizer a verdade. Nesta noite, vi Jesus muito brilhante, cheio de luz, mas com a Sua santíssima cabeça cercada com uma coroa de agudíssimos espinhos. Parecia-me não ser sonho e, na dúvida de ser ou não, pensava não dizer nada, deixar oculto. No decorrer da manhã, estava sozinha, unida a Jesus a fazer as minhas orações. Veio o demónio, raivoso, malicioso, com ameaças apavoradoras. Enquanto podia, ofereci-me logo a Jesus e à Mãezinha em favor das almas. Que receio tão grande de pecar, estava cheia de medo. Ele dizia-me coisas feias e que desconheço. Parecia-me estar entregue aos maiores prazeres, aos maiores crimes. (Alexandrina Maria da Costa: 3 de Abril de 1945).

NADA SEI DIZER

 O demónio tem-me atormentado tanto, tanto!


— Tirai, Jesus, tira, meu Amor, para Vós a consolação e a alegria, deixai para mim o que é dor e trevas. A vontade quer aceitar por amor; a pobre natureza fraqueja, porque mais não pode. Tende dó de mim, Jesus.

O demónio tem-me atormentado tanto, tanto! Tudo aproveita para me martirizar. Eu que tudo faço por malícia, que tudo faço para enganar; enche-me de dúvidas. Veio com um ataque tão atormentador! Eu não tinha no meu corpo o mais pequenino bocadinho que não servisse de instrumento para ofender a Jesus. Parecia-me que o maldito se utilizava de todo o meu ser para pecar comigo, para ferir o meu Jesus.

— Ó meu Deus, que mar de crimes! Ofender-Vos com todos os meus sentidos!

Lutei por muito tempo, no meio de insultos, e ele parecia-me ser o senhor do meu coração. Figurava-se-me que o via dentro dele. E ele dizia-me:

— Expulsa-me do teu coração. Não és capaz, sou senhor dele.

Depois de muito lutar e lutar às portas da morte, fiquei caída, fora das minhas almofadas. Sem poder mexer-me, invoquei muitas vezes o nome de Jesus, chamei por Ele, pedi-Lhe para me acudir, mas oh! com que vergonha e tristeza! Ouvi Ele dizer-me assim:

— Com um sopro, saído dos meus lábios divinos, vais docemente para as tuas almofadas, minha filhinha.

E vi-O então a Ele senhor do meu coração. Era Jesus Menino, já crescidinho. A cruz era maior que Ele.

— Sou eu o rei, sou eu o senhor. És minha e tudo o que é teu a mim pertence. Não pecaste, minha filha. O teu corpo não é como o demónio te faz sentir, um instrumento de pecado; todo ele é um instrumento de reparação para mim. Repara, repara, aceita, abraça a tua cruz. O teu corpo é de pureza, o teu coração é de amor.

— Confio, meu Jesus, não me falteis e não consintais que eu mova os meus lábios e nada faça que Vos desgoste.

No meio das minhas amarguras, no abismo das minhas trevas, quando já não posso mais e me parece não haver remédio para os meus males, sinto por vezes Jesus no meu coração a estreitar-me com todo o amor e a repetir-me uma e muitas vezes:

— Coragem! Eu estou contigo, não te falta o conforto do teu Jesus. És minha, eu amo-te, nada temas. Sofre contente, sofre por amor, não deixes as almas perderem-se.

Tudo isto faz-me reviver, mas por bem pouco tempo. Só as ânsias de me dar às almas, de salvar o mundo não cessam, consomem-me o coração. Que desejos tão vivos de incendiar no mundo o fogo divino, o fogo que, sem ser meu, sinto-o, consome-me, devora-me!

— Ó mundo, hei-de vencer-te, hás-de salvar-te. Ó rochedo, hei-de reduzir-te a chamas, hás-de amar a Jesus, hás-de ser puro, hás-de viver para Ele.

O demónio continua a rodear as janelas que cercam o edifício do meu corpo. Redobra sempre a sua malícia, tenta entrar por uma e por outra. Enraivecido, uiva e desespera-se, por nada poder conseguir. Não posso lembrar-me que hoje é o dia a Ascensão de Jesus ao céu. Parece-me que Jesus subiu, deu a Sua entrada no céu sem ser louvado e festejado. As trevas cegaram os anjos e todos os habitantes do céu. O meu coração apavorado chora lágrimas de dor e de sangue. Sente as cordas que amanhã lhe vão atar o seu corpo. Sente nele as bofetadas e os escarros que ao rosto lhe hão-de ir cair. Pobre coração, que não sabe amar, que não sabe compadecer-se de Jesus, que está nele caído com a cruz às costas e atado com grossas cordas. Visão dolorosa a da minha alma! Em que estado ela vê Jesus. Anteciparam-se os sofrimentos; já hoje sinto tudo. Durante a Ceia vi e senti o abraço de Jesus a seus discípulos. Que abraço tão terno e eterno! Entre eles houve um que recusou, não quis aceitar. Mas a ternura e o amor de Jesus continuaram ainda sobre ele. Como Nosso Senhor sofreu ao ser desprezado o Seu convite, o Seu amor, o Seu chamamento! Se Jesus, a Mãezinha ou os anjos falassem em meus lábios para gravarem bem nestas linhas o amor divino e a ingratidão do mundo a esse amor! Que sede eu tenho de dar almas a Jesus, de salvar o mundo e de matar o pecado para sempre, para sempre! Não sei dizer o que quero e não vejo nada para fazer, estou ceguinha. (Alexandrina Maria da Costa: 10 de Maio de 1945).

OS MEUS OLHOS NADA VÊEM

Vontade do meu Deus, quero-te


A minha língua, envolvida em trevas, parece estar presa e não poder mover-se para dizer a grande dor que me vai na alma. Os meus olhos nada vêem. Que dizer, que fazer, meu Jesus? Tremo de medo, temo a minha existência aqui. Que grande horror pensar que tenho de demorar-me neste triste exílio! É triste por ser triste, mas alegre por ser o que Jesus quer.

— Vontade divina, vontade do meu Deus, quero-te, abraço-te e nunca mais te largarei.

Os grandes arrancos da minha alma têm continuado; por vezes são como terramoto que tudo destrói; todo o meu ser parece ficar em estilhaços. E os sobressaltos vão-se repetindo: temo a todos, temo a mim mesma. Sem ver e sem forças para resistir, estou como se estivesse de braços abertos à espera de tudo o que o céu quiser enviar-me, o céu que me parece ser de trevas, o céu que baixa sobre mim e me obriga a infundir-me na terra, na terra de iguais trevas. A que profundeza já eu vou! Quanto mais esmagada, quanto mais me vou aprofundando, mais em trevas fico. Que horror! Parece não poder convencer-me que na terra há luz e há sol, que no céu há alegria, luz brilhante e amor sem fim. Meu Deus, não conheço nada, parece que nada disto experimentei. Sinto dentro em minha alma uma revolta do céu contra a terra. Jesus não pode mais aguentar com os crimes da pobre humanidade. Que quadro tão doloroso, que cena tão triste! Se o mundo pudesse ver o que se passa em mim, com certeza não pecaria mais. Se não o comovesse o amor de Jesus, aterrava-o a Sua justiça. Sinto, sinto toda a justiça divina a querer descarregar sobre a terra. Não sei quem é, é alguém que se prostra com grande aflição diante da justiça divina para sustentar o Seu braço poderoso, prestes a cair sobre a terra. Não é só a alma que o sente, vê com os seus olhos esta visão claramente.

— Meu Deus, só Vós sabeis quanto eu sofro e por quem sofro. É por Vós, é pelas almas. (Alexandrina Maria da Costa: 10 de Maio de 1945).

domingo, maio 09, 2021

NÃO POSSO PENSAR NA PERDA DAS ALMAS

Quero remediar este mal e não posso


Não quero o mundo; quero desaparecer dele, morrer para ele; não quero o mundo, nem nada que lhe pertença. Quero as almas, quero as almas todas que nele habitam, porque essas sim, essas só a Jesus pertencem. Deixo-me crucificar e morrer por elas. Não posso pensar na perda das almas; não posso pensar que Jesus é ofendido. Eu não quero o amor das criaturas; quero o amor do meu Jesus. Eu não quero ofendê-Lo nem sabê-Lo ofendido. Que sede de me dar a Ele, de Lhe pertencer, de morrer por Ele! Que sede de ver o mundo, ou melhor, as almas nas mesmas ânsias, nas mesmas pretensões. Queria tudo numa só alma, num só coração, num só amor. O meu coração está cansado de tanta ansiedade, de tanta sede de amor. Eu não sei quem continuamente bebe em mim e bebe sofregamente; a minha alma sente, os meus ouvidos ouvem o saborear, o beber ofegante desta bebida. Continuo a ser o poço inesgotável, apesar de, noite e dia, sem parar, dar água com toda a abundância a quem quer beber. Depois disto não sou nada, não dou nada, em mim nada há. Eu não vivo mas há em mim outra vida que vive e ama, que vive e possui tudo. Queria viver esta vida, amá-la, perder-me nela, enlouquecer por ela. Ó meu Deus, ó meu Deus, eu quero que as minha loucuras sejam só para Jesus e para as almas. Sinto que esta vida é ferida, ultrajada, calcada aos pés de ingratos. Eu não posso consentir em tal, quero remediar este mal e não posso. Sinto o meu corpo ralado, moído, desfeito pela dor. Por vezes digo: meu Deus, como se vive, como se pode resistir a tanto. Meu Jesus, sou a Vossa vítima, aceitai o incenso do meu sofrimento, que ele suba ao Céu constantemente, dia e noite, sem parar, para ser a reparação da bondade de Deus ultrajado. Fito os olhos em Jesus crucificado, compadeço-me dos Seus sofrimentos, quero evitá-los e não posso; sofro amarguradamente com Jesus. Fito novamente a imagem do Seu divino Coração e peço-Lhe: deixai-me entrar, Jesus, no Vosso divino Coração, para me esconder e incendiar. E fazei que eu vá como um sopro, como uma aragem suave, levar a todos os corações a Vossa graça, o fogo do Vosso amor. Digo e não sou eu, falo e não sei falar. Ó meu Deus, e assim me vou mergulhando nesta abismo medonho de cegueira, abismo, cegueira, que não mais terá fim. Sinto-me nela como peixe na água; quanto mais me mergulho em cegueira, mais obrigada me sinto a, profundamente, me mergulhar. E sempre sobre esta cegueira um mar tempestuoso, com fúrias desastrosas. E o coração a sangrar, sempre a sangrar; com que crueldade eu o sinto ser apunhalado! Que finos e dolorosos são os fios que o cortam! Ó minha cruz, eu te amo! Ó Mãezinha, eu sou Vossa; dai-me força e amai por mim a Jesus, amai-O em nome de todas as almas. (Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma: 9 de Maio de 1947)


sábado, maio 08, 2021

SENTI COMO SE UM CANAL…

Aquele canal tinha a vida divina


Esquecida d’Ele e da Sua santa paixão, ou melhor, não esquecida mas mergulhada neste sofrimento de esquecimento, fiquei no solo duro e triste do Horto. Foi tristeza e agonia mortal. Apavorada a minha alma, a lutar com todo o martírio, senti como se um canal descesse do Céu e dentro dele me introduzisse. Aquele canal tinha a vida divina. E toda a minha vida terrena, todo o meu ser de misérias foi por ela trespassada como raios de sol doirados e penetrantes. Que mistura, que mistura… a terra com o Céu! Se eu soubesse exprimir-me com soube sentir, levava uma vida inteira só a falar disto, sem acabar. Acompanhei Jesus na prisão. Durante a noite, repetidas vezes lá nos encontrámos, assim como no sacrário. Hoje de manhã segui para o Calvário, seguiu a minha alma. Os caminhos não tinham sol, a tristeza foi mortal. No percurso da viagem fiz vários sacrifícios por amor do Senhor. Senti como se Ele tudo me rejeitasse. Com Ele subi até ao cimo da montanha. Naquela noite trevas e mar infinito de dor, Ele coberto de sangue, com as carnes despedaçadas, quase a agonizar, dizia-me em silêncio dentro do coração: “Ama-me, vê quanto sofri por ti!” Com Ele fui despojada dos meus vestidos, com Ele senti a vergonha, o pudor e com Ele fui crucificada. Nas horas de agonia senti que a nossa união era um contraste, era um anel que nos apertava e nos levava a viver a mesma vida. Agonizei com Jesus. eu bradava com Ele e ao nosso brado toda a terra estremeceu. Ele expirou. Tive que expirar com Ele. Não foi prolongado o silêncio da noite: Jesus cheio de vida e luz fez-me viver e dentro do meu coração falou-me assim:

— Alegrai-vos, está aqui o Senhor. Desceu do Céu. Bendizei o Seu nome! Alegrai-vos! Está aqui Jesus. Está no seu trono, no seu paraíso de delícias. Alegrai-vos! Ele está aqui e vai falar aos vossos corações. Convido-vos, convido-vos a todos. Vinde a Mim! Vinde a Mim, filhos meus! Falo pelos lábios da minha vítima, falo e peço a toda a humanidade. Amai-me, amai-me. Quero ser amado. Está neste calvário a luz e o farol do mundo. Está neste calvário a escora da justiça do Senhor. Está neste calvário o íman atraente que atrai as almas ao Seu Coração. Está neste calvário o porta-voz de Jesus. Este calvário é um portento de graças. Este calvário é o calvário das maravilhas de Deus. Este calvário é, sobretudo, calvário do amor, do amor da louca do amor por Jesus. Criei-te por amor, minha filha. Por amar-te, escolhi esta nobilíssima missão. Por amor te conservo a tua vida aqui. Vives de Jesus. Vives da Eucaristia. Vives da vida divina. É o poder do Senhor aqui manifestado. Quero salvar-vos, filhos meus. Indico, manifesto pela minha vítima mais uma vez o caminho da salvação. Fala às almas, minha filha, fala às almas. Fala-lhes enquanto estás na terra. Do Céu, sim, do Céu dar-lhes-ás chuvas de bênçãos, chuvas de graças, chuvas de salvação. (Alexandrina Maria da Costa: 08-05-1953)

FLORINHAS DE MAIO

Por amor de Maria Santíssima…

O mês de Maria, em 1935 – Desejosa de consolar a Mãezinha e por seu amor sofrer alguma coisa, pensei em escrever nuns pedacinhos de papel uns pensamentos todos os dias do mês de Maio. Em cada dia tirava um à sorte e procurava viver segundo o que estava escrito. Isto só com o fim de consolar Jesus por meio da Mãezinha. Eis o que saiu para cada dia do mês:




1 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para obter um amor doido a Jesus Sacramentado e para que seja amado de todos no Santíssimo Sacramento.

2 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelas intenções do meu padrinho e família.

3 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelos pecadores que me estão muito recomendados.

4 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo por todos os pecadores do mundo.

5 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para obter um amor doido a Maria Santíssima.

6 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelos sacerdotes.

7 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelas intenções que me estão recomendadas.

8 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelo meu director espiritual.

9 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para obter o amor dos anjos, dos querubins e dos serafins.

10 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo sem em queixar.

11 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelo que for da vontade de Nosso Senhor.

12 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo em memória da Paixão de Nosso Senhor.

13 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pela minha mãezinha.

14 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, mortificarei o meu corpo.

15 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei só para viver para Jesus e para Maria.

16 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelo Santo Padre e pelas necessidades da Santa Igreja.

17 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei pelas Dores de Nossa Senhora.

18 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei pela minha querida Çãozinha.

19 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, entrego-Lhe o meu corpo como vítima e renovo o meu voto de virgindade e pureza.

20 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para só pensar em Jesus e Maria.

21 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para ser muito amiga do meu Anjo da Guarda.

22 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, guardarei o silêncio.

23 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para obter o amor da Santíssima Trindade.

24 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei para alcançar tudo de Nosso Senhor e ser santa.

26 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, renovarei o voto de oferecer tudo pelas Almas do Purgatório.

27 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo, em primeiro lugar, pela Nossa Cruzada Eucarística e por outra que me foi recomendada e por todas do mundo inteiro.

28 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pela conversão e necessidade de toda a minha família.

29 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelos pecadores que estão para mais depressa irem para a presença do Senhor.

30 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para obter o amor de todos os santos e santas.

31 – Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, não comerei sobremesa.

No primeiro de Maio, aos pés de Maria: um verdadeiro e sincero amor da minha parte para com a minha Mãe Santíssima e para com Jesus Sacramentado. (Alexandrina Maria da Costa: Autobiografia)

MUITAS VEZES DESFALEÇO

Sinto coisas tão grandes como o Céu


A minha cruz é pesadíssima para eu levar. Ela aumenta de dia para dia. Só vivo da confiança que Jesus a leva por mim. Mas muitas vezes desfaleço, sinto que não tenho confiança, não tenho esperança, não tenho nada. Não sou nada, mesmo nada, nem ao menos vermezinho da terra chego a ser e sou ao mesmo tempo trapo imundo, trapo a desfazer-se de podridão, onde toda a humanidade calca e se limpa ao mesmo tempo. Limpa-se e suja-se, contamina-se com o veneno da minha podridão. Ai, o que eu sou, meu Deus, o que eu sou de miséria e crime, ai, o que vejo dentro em mim! Parece que não posso consentir que as almas se abeirem de mim. De momento para momento aumenta o pavor pela miséria que sinto, pela criminosa que sou. Apavoro-me por sentir que elas outra coisa não podem ver em mim. Tenho medo de as escandalizar, tenho medo que elas com a visão de tantos crimes se percam. A estes sentimentos dolorosos juntam-se outros não menos dolorosos. Enlouqueço-me por elas, quero abraçá-las de tal forma a metê-las todas no Coração Divino de Jesus, a fechá-las todas no Céu. Que indizíveis sofrimentos, que sofrimentos e ânsias infinitas. Parece que é Jesus a arrancar-me o coração deste corpo imundo para o levar para Ele e com ele todos corações do mundo inteiro. Sinto, sinto que Jesus os quer e eu não posso dar-Lhos, nem aguentar com as ânsias que Ele tem de os possuir. Não sei dizer mais nada. Sinto coisas tão grandes como o Céu; sinto a necessidade de falar delas e não sei. Meu Deus, meu Deus, que poder supremo me arranca e atrai para Vós! Que loucura, que loucura a do Vosso amor! Queria falar dele e não me deixa a minha ignorância. Passei a vida esquecida do Senhor. São esses os meus sentimentos, foi assim o meu dia de ontem depois de talvez milhares de vezes pronunciar o Seu santo Nome, fiquei sem nada dizer e nada fazer por Ele. (Alexandrina Maria da Costa: S. 8 de Maio de 1953)