14 de abril de 2012

DEMÓNIO: OUÇO DELE O QUE NUNCA OUVI DAS CRIATURAS

Tu não me satisfazes...

O demónio continua a correr para mim como um cavalo sem freio. Vem louco para me insultar e convidar ao mal. Ouço dele o que nunca ouvi das criaturas, conheço dele o que nunca conheci do mundo. Não se disse, parece-me que sim:
— Tu não me satisfazes, convida mais demónios para pecarem comigo; quero o prazer, quero gozar.
Que horror, que horror parecer-me que dizia isto e que desviava para longe de mim o terço e a Mãezinha, que lhes escarrava e os calcava aos pés. Parece-me sempre que o maldito consegue de mim tudo quanto deseja e que ofendo o meu Jesus. No auge da dor, mais libertada dele, repeti muitas vezes:
— Não, não, não, meu Jesus, não quero pecar.
E, neste momento, veio Jesus tirar-me de sobre o abismo em que estava.
— Sim, sim, minha filha, não queres o pecado, queres o meu divino amor, e esse te dou na maior das abundâncias. Sim, sim, sim, minha filha, não queres o pecado, mas a salvação das almas, e só assim com esta reparação elas podem ser salvas, as que tão gravemente me ofendem nesta matéria. Ordeno-te, meu encanto, que vás para as tuas almofadas.
Uma força, vinda não sei de onde, nelas me colocou. Cansada de tanto lutar, banhada em suor, fui repetindo sempre: “amor, amor, sempre amor, meu Jesus; almas, todas as almas”. Não sei como o maldito se pode apresentar com caras tão feias, olhares aterradores e em forma de bichos de tanta variedade. Vêm até junto de mim como para me engolirem, alguns tão espraganudos! Ai, o que ele faz para nos tentar, para nos perder. Que pena não conhecerem todos as suas artes e manhas.
Hoje, logo de manhãzinha cedo, senti na minha alma, ouvi aos meus ouvidos fortes ruídos, grandes pancadas a abrirem-me a sepultura. Era tão funda! Que horror, é quinta-feira. Corre para mim a morte, a sepultura está pronta. Vem sobre mim o peso de todas as humilhações, nada há de mau que contra mim não digam. A minha alma já vê tudo o que vai tirar a vida do corpo. A minha sepultura é um poço, um abismo. Nada há em mim de alegria, tudo o que é belo e poderoso para mim é dor. Deitada na minha cama, pude admirar a grandeza do Criador. Vi pela janela as árvores, cobertas de flores. Que maravilha! A brancura delas transformava-se em noite na minha alma. Todas as pétalas das mesmas flores serviram de setas para em meu coração serem cravadas.
— O que fazer, meu Deus? Aceitar o que vem de Vós, a Vossa vontade, Senhor! Vou para a morte com os olhos fixos na Vossa cruz.
(Beata Alexandrina : Sentimentos da alma, 1 de Março de 1945)

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