13 de abril de 2012

Ó DOR, EU AMO-TE !

Falar dela por obediência…

Custa-me tanto falar da dor! É tão grande o meu sacrifício! Se eu pudesse encobrir as minhas amarguras!
— Meu Deus, não me deixes, tenho de obedecer, tenho de falar dela; é a dor a minha vida contínua.
Sofro de dia, sofro de noite, sofro a toda a hora e momento. Sinto-me rolar pela terra; rolo, corro mundo sem parar, e é a dor que me obriga. Rasga-se-me o coração e a alma e todo o ser. Sinto que um mundo de feras cai sobre mim, todas com trombas como elefantes, que penetram no meu corpo, me chupam todo o meu sangue; estou esgotadíssima, não tenho mais para lhes dar. De boa vontade eu mesma lhes abro as veias para elas chuparem. Mas, pobre de mim, estou como um rio que secou, e só se encontram nele areias espessas e ressequidas.
— Ai, meu Jesus, que hei-de eu fazer mais por Vós? Que mais hei-de fazer pelas almas? Ai, o mundo que não vê, e eu não tenho luz para lhe dar. Ai de tantas almas que têm sede, e eu não posso saciá-la. Deixai-as, meu bom Jesus, fazei que elas entrem todas no Vosso Divino Coração: aí encontram luz, nele podem saciar-se. De Vós podem receber toda a vida que necessitam e que eu não tenho para lhes dar.
A minha preocupação é Jesus, a minha preocupação são as almas.
— Ó dor, triste dor, eu quero-te, eu amo-te; vens de Jesus, beijo-te, abraço-te, sorrio-te de alma e coração. Mas, meu Deus, como viver esmagada debaixo deste peso universal?
Os olhos do meu corpo não podem ver o sol que com os seus raios teima entrar pela janela e vir até junto do meu quarto. Os meus olhos não podem vê-lo nem o meu espírito recordar que ele existe, porque os olhos da minha alma só vêem noite, tremenda noite dentro e fora de mim. Os meus ouvidos não podem ouvir os gorjeios das avezinhas que, com os seus trinados, fazem lembrar a primavera que se aproxima. Não posso ouvir o mar com o seu barulho estrondoso, porque o mar sem fim, ameaçador, sempre ameaçador, com ameaças destruidoras, está sem pré sobre a minha alma. Tudo isto me faz lembrar a grandeza e o poder do meu Deus e obriga-me a entrar dentro de mim, a viver dentro em mim, a não sair fora de mim, juntando Jesus com Sua grandeza, com o Seu poder, com o Seu amor à amargura, à dor, à noite da minha alma.
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(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 26 de Fevereiro de 1945)

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