14 de outubro de 2011

BUSCO JESUS

Mas o mundo está cego...

De vez em quando, sem eu pensar nem querer, está a minha alma a bradar ao Céu, a clamar pelo Eterno Pai. Mas, ó meu Deus, para mim sinto já não haver Céu; as suas portas fecharam-se, o meu brado não é aceite, nem O Eterno Pai ouve a minha voz.
Um mundo de negras trevas separou-me da minha Pátria; não há Céu, não há vida para mim. Parece-me mostrar ao mundo as minhas chagas abertas, o coração todo em sangue e a cabeça cercada de espinhos e dizer-lhe: vê como eu te amo, vê o que sofro por ti; vem, o meu coração quer receber-te. Mas o mundo está cego, não vê o meu ferimento, está surdo, não ouve a minha voz. E pisa, calca, sem dó nem piedade, o meu pobre coração; é ele, chagado e em sangue, um trapo para a humanidade inteira, é o pó, é a lama que ela calca; é o mundo a ferir-me, é ele a causa da minha dor. Mas há em mim um amor que ama e esquece, um coração que busca e anseia, um coração, que é louco e quer dar a vida a toda a humanidade, e que está morto. Que grande agonia a da minha alma! Como é doloroso o meu sofrer! Em tudo vejo a cruz mas veja-a com o coração sempre a arder, sempre em ânsias de amar; é como uma caldeira sempre a ferver sobre a fornalha de brasas vivas. Esta fornalha, esta caldeira, este amor não é meu; tomou posse do meu corpo, mas não me pertence. Não sei amar com este amor, não sei aceitar nem ver a cruz como este amor. Ó meu Deus, pobre de mim, como é sensível e visível a minha miséria! Que nojo tenho de mim! É por isso que eu brado ao Céu, e brado, noite e dia: Jesus dá ou permite outros darem um corte em todas as minhas alegrias; não chego a saboreá-las; nas mais pequeninas coisas, em que eu poderia, alegrar-me, um fino golpe, vindo daqui ou dalém, lhe tira toda a doença. É a minha cruz, logo murmura o meu coração. Meu Jesus, por Vosso amor. Vós, Vós, só Vós, cortai-me tudo, tirai-me tudo, todo o afecto, toda a alegria, todo o amor, que não seja o Vosso.
É impossível, por vezes, resistir a tanta ânsia, a tantos desejos de me dar a Jesus, de ser só Dele, de toda Lhe pertencer, de O amar e em tudo ver o Seu divino amor. Busco Jesus, quero abraçá-Lo. Ele mais se ausenta, mais se separa de mim. E eu, sem poder encontrá-Lo, abraço a minha cruz numa confiança ilimitada de que nela está o meu Jesus, de que é Ele e de que todo o sofrimento é cruz vem Dele? Se é esta a vontade do Senhor, não quero viver senão na dor. Não é possível arrancar do meu coração os sentimentos da sua dor; que martírio triunfante! Sofre sem alívio, sofre sem saber sofrer, sofre sem saber amar. As minhas dores, as minhas chagas, os meus martírios, oh! como eu lhes quero!

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(Beata Alexandrina; Sentimentos da alma, 22 de Agosto de 1947 - Sexta-feira)

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