17 de outubro de 2011

DERRETIA-SE EM DOR A ALMA

Levou-me para a última parte do amor

O demónio rodeia-me, assusta-me, em forma de serpentes e outros bichos mais. Apareceu em forma humana com quatro olhos no rosto; tinha olhares aterradores. Atormenta-me a imaginação com dúvidas e coisas sem jeito. Em todas as minhas coisas, ele põe o maior veneno. Reapareceu-me na alma aquela ansiedade de, debulhada em lágrimas, me prostrar aos pés de Suas Santidade. Sinto-me como se dele recebesse alguma coisa, que dele ansiava. Queria agora humildemente beijar as Suas mãos como sinal do meu agradecimento. Meu Jesus, o que recebi eu? Parece-me que um peso saiu de sobre mim. Vós o sabeis, meu Jesus, e isso basta.
Ontem de tarde, vi o Horto; vi-o em duas partes; numa, tudo gera podridão, ruína e morte, trovões, tempestades e a ira do Senhor sobre ela; na outra, dor de toda a qualidade, dor sem fim. Levou-me para a última parte do amor; mergulhada ali naquela dor, transformou-se o meu coração num mar de sangue, que dava corrente para todas as nascentes; era a água de todas as fontes, era a vida de toas as vidas. Veio a primeira parte, e mergulhou-se neste mar de sangue, e aí a escondeu o amor de Jesus. Como eu a sentia e via ele incendiar-se! Como Ele amava, enquanto recebia dor, dor, sem fim.
Hoje, nas ruas da amargura, só vi trevas, só senti dor nestas trevas mergulhada. A minha alma despedaçava-se com o peso da dor; rasgavam-se-me as carnes, escorria o sangue. Sem poder com a cruz, caí no desfalecimento, e vi coberto de suor, sangue e pó o rosto de Jesus. Não O pude ver sofrer; desfaleci e caí com Ele com todo o Seu Santíssimo Corpo, gravado em meu peito. Aproximava-se o fim da montanha. Como Ele via com os Seus olhos divinos o que nela O esperava. Que tristeza mortal; derretia-se em dor a alma. No cimo da montanha, no alto da cruz, depois dos maus-tratos, blasfémias e calúnias, fiquei a sentir o silêncio do Calvário; ouvia os suspiros de Jesus, e, no meu peito, sentia o arquejar do seu. Feriam-me o coração os Seus suspiros. Com os olhos da alma via bem ao vivo a Mãezinha com olhares angustiosos a ver tudo que em Jesus se passava. Como Ele sofria! Juntavam-se as espadas do Seu Santíssimo Coração ao de Jesus todo ferido. Ele expirou e eu senti expirar com Ele; morta senti-me ficar por algum tempo.
Veio Jesus como ressuscitado, e ressuscitou-me também. Gozava Dele, da Sua paz, da Sua vida, mas sem a Sua luz.
― Minha filha, minha amada filha, são para Mim as tuas ânsias, o teu coração com todas as palpitações e amor; és Minha, tudo é para Mim, és o Meu sacrário. Vem gozar do Meu amor; sem ele não vives, sem ele não dás a vida às almas.

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(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 29 de Agosto de 1947 - Sexta-feira)

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