5 de outubro de 2011

SENTI-ME FERIDA POR AQUELE FOGO

Jesus era maltratado…

Ontem, logo de manhã, encostada ao meu coração, quase em forma de cruz, principiei a sentir e a ver a esponja. A minha sede aumentou, dizia para Jesus: é de Vós que eu tudo recebo, são as almas que eu quero dar-Vos. Era já quase noite e eu a arder nesta sede; e vi Jesus, de mãos atadas, cordas ao pescoço e à cinta, rodeado de malvados. Trouxeram-Lhe uma cruz, que Lhe colocaram, aos Seus ombros divinos. Ele inclinou-se, inclinou-se com tanto peso, quase chegava com o Seu Santíssimo rosto à terra. Isto não era em mim, e veio para mim. Que pena e dor eu senti; levou-me à agonia do Horto. Quando lá sofria em tanta amargura, sem nenhuma vida sem nenhum conforto, transformou-se o Horto num formoso jardim, todo rodeado de loiro trigo, aos molhos. Que grande e formosa seara! No meio do jardim estava ao alto uma cruz; no centro dela um coração; não sei com que estava preso. Vinham do alto raios de fogo, que passavam por dentro desse coração, aberto dum lado ao outro, e iluminavam tudo. Do pé da cruz, saíam fortes pés de açucenas que cresceram e abriram formosas quase até aos braços da cruz. Isto foi visão; não se passou em mim, mas senti-me ferida por aquele fogo, senti-me outra abrasada nele; com a alma muito confortada, fiquei com mais vida.
Algum tempo depois, vi-me num grande bosque, rodeada de feras, grandes, pequenas, mas todas feias, aterradoras. Pensei ir ter com o demónio algum combate, por já ter assim acontecido. Mas não; pouco depois, vi todas aquelas feras a correrem à minha frente, e não sei quem atrás delas com grandes chicotes a chicoteá-las. Eu fiquei num campo grande, libertada; tinha tudo por minha conta.
Hoje de manhã, vi Jesus a ser despido até à cinta, e, depois, preso à coluna. Jesus era maltratado, estava muito triste; com que modos bruscos O despojavam dos Seus vestidos! Até aqui foi só com Ele; e, depois, os açoites foram sobre o meu corpo. Que chuva deles eu senti caírem! Do caminho do Calvário nada mais sei dizer, nem da maior parte do tempo da montanha. Era um mundo de sofrimentos indizível, não sei dizê-los; a cegueira do meu espírito não me deixou compreendê-los. Pouco tempo antes de Jesus agonizar, vi uma alma subir por uma escada que estava posta à cruz; vi que ela subia com muito custo. Subiu, subiu e foi meter-se na chaga do Coração de divino Jesus e desapareceu. Vinham sempre do alto uns raios de fogo que trespassavam o mesmo Divino Coração. Logo fiquei a sentir Jesus, em mim crucificado, e eu crucificada com Ele, a sentir o Seu Coração transformado no meu, e aquele fogo transformou-se numa lança, que nos atingia os dois; era lança só de amor. Logo fiquei a sentir o mesmo sofrimento indizível e então todas as chagas abertas, a coroa de espinhos, o correr do sangue, o fim da vida; e assim expirei a sentir que voou de mim uma vida como um sorriso para Deus. Nesta morte passou-se um bom pedaço, sem que Jesus viesse.

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(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 1º de Agosto de 1947).

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