21 de outubro de 2011

QUE CHUVA DE SANGUE!

Principiou o meu coração a arder

Vi, a noite passada, muitos malvados a açoitar Jesus. Que pena! Nem posso pensar! Tantos algozes contra um inocente! Meu doce Jesus, pertenceria eu também ao número dos que tão mal Vos tratavam!
Na tarde de ontem, principiou o meu coração a arder, sobre este fogo abrasador caiu um mundo de misérias, e trazia com ele toda a maldade e furor infernal. Sobre este mundo veio o Céu. Travou-se uma luta, uma grande guerra; o Céu contra a terra, a grandeza contra o nada, a pureza contra a lama. Nesta luta, nesta guerra, fui para o Horto. Uma electricidade divina parecia faiscar e despedaçar tudo. E eu, debaixo de toda a podridão do mundo e da justiça divina, tinha que lhe satisfazer por tantas maldades. E logo senti a terra a banhar-se de Sangue, saído das veias e suores de Jesus. Vi-O a fitar o Céu e a levantar para ele as Suas mãos divinas com o cálice a transbordar de amargura. A satisfação não estava completa, tinha que seguir o Calvário.
Hoje de manhãzinha veio-me uma grande cruz, de encontro ao peito; acendeu-me no coração o desejo de a beijar e abraçar; logo a senti aos ombros e segui os dolorosos caminhos do Calvário. Senti em meu corpo os vestidos colados de sangue, sangue que vinha das feridas dos espinhos, que, ao eu cair por terra, mais se abriam e aprofundavam. Que chuva de sangue da minha cabeça, ou para melhor dizer, da cabeça Sacrossanta de Jesus! Foi Ele que caminhou e sofreu. Que desfalecimento, ao ver-me já sem vida e ainda tão longe da montanha! Já no alto dela, caí com Jesus, pela última vez; foi perto do lugar, onde ia ser crucificada; bati com o peito no solo duro; nova golfada de sangue me subiu aos lábios.


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(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 5 de Setembro de 1947 - Sexta-feira)

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