9 de outubro de 2011

CAVO A MINHA SEPULTURA

 Vem um espinho e outro espinho...


Cavo a minha sepultura, cavo a sepultura mundial. E sinto-me tão ferida com esta nojenta escavação! O coração sangra; as chagas, as feridas dos espinhos, todo o meu ser é feridas e sangue. Sinto em mim um olhar, que não pode ver esta sepultura tão podre. Não posso vê-la, meu Jesus, não posso vê-la nem estar assim ferida e em sangue. Ó meu Deus, não posso e quero estar a sangrar, a dar o meu sangue, gota a gota. Morrer para dar a vida a esta terra podre, e esta massa nojenta. Jesus, que fome eu tenho, e esta fome é de Vós; enchei-me, saciai-me; este bem que eu sinto, só Vós o podeis encher.
Ninguém me satisfaz; nas criaturas não encontro alegria nem conforto; Vós, só Vós, vinde, Jesus, encher-me e confortar-me; Vós, só Vós sois a minha alegria e a minha paz. Chamo-Te, Jesus, procuro-Te, não Te encontro, não me falas, ó Jesus, ó Jesus, onde estás Tu? O meu peito é rasgado, golpe sobre golpe; sinto como se em minhas mãos tivesse o coração como uma bola de sangue a mostrá-lo a quem o feriu; mostro-o sem obter resultado; não têm de mim compaixão. Fala, de dentro dele, uma voz dorida: “não há dor igual à minha dor”.
Vem um espinho e outro espinho, uma dor e outra dor, e, por vezes, sinto a revolta da natureza, um rápido momento, de querer fugir à cruz. Mas não quero; tudo isto me serve para mais sofrer; quero ser perfeita e não sou, não quero magoar o meu Jesus e estou sempre a magoá-Lo. Que miséria, que fragilidade a minha! Quero esconder a minha vida, e não posso. Não queria que soubessem o que Jesus na Sua bondade infinita faz em minha alma, e não me deixa ocultar. Que horror! Oh! quanto sofro! Queria perder mundos e mundos, se os possuísse, e nada se saber. Ó minha cruz bendita tu sejas, e bendita seja a vontade do meu Jesus. Morra o meu querer e a minha vontade, se alguma coisa existe. Perdoai-me, ó meu Jesus, se Vos ofendi. Quanto mais profundos são os golpes, quanto mais no íntimo do coração e da alma me calam os espinhos, mais atracção eu sinto para O meu Jesus. Quantas vezes O quero beijar e abraçar com toda a Santíssima Trindade e a Mãezinha querida, mesmo quando as contrariedades aumentam, e as humilhações me esmagam e oprimem; quando os sofrimentos e a falta de forças não me permitem realizar os meus desejos, satisfazer as minhas ânsias, só com o pensamento digo: Jesus, a Vós me entrego; abraça-Vos e beija-Vos o meu coração e a minha alma; são estes que Vos dizem e fazem tudo; eu não posso. E assim, entrego a Jesus, fico no meu sofrer, fico como que adormecida ou morta na dor, mas a sentir e a viver a dor. Tudo isto é por amor, sem sentir que amo.
A justiça divina, a ira do Senhor vem tantas vezes, a cair sobre mim, vem mesmo a esmagar-me, e, não sei porquê, volta a subir sem me deixar ferida. Eu estou cansada de ver tanta justiça, mas outro cansaço maior sinto ainda, por ver que essa justiça tem que ser aplicada. A minha cruz, a minha cruz, que tanto pesa, quanto me custa levá-la, e não quero nem posso caminhar sem ela; amo-a, amo-a mesmo sem amor.

(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 8 de Agosto de 1947 - Sexta-feira)

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