17 de outubro de 2011

HÁ ESPINHOS QUE ME FEREM

Não sei o que tenho em mim

(Desenho de Xavier Petitfils)
Apagou-se por completo a luz de todas as minhas esperanças. Foram as minhas trevas a causa de todo este mal. Poderei viver assim, meu Jesus, arrastada só pela cadeia da confiança em Vós? Mas ai, quantas vezes até essa me parece perder. Mas eu confio, meu Jesus, confia mesmo contra tudo, contra toda a morte das minhas esperanças. Espero em Vós, Senhor, e não serei confundida.
Há espinhos que me ferem, e vão ferir-me até à morte. Quando sinto e penso na dor, que me causam, fito os meus olhos em Jesus, e digo: para que estou eu a pensar no que me fere a mim. Se eu pensasse, meu Jesus, nos espinhos que ferem o Vosso divino Coração, na dor que Vos causam os crimes da humanidade, esquecia a minha dor. Perdoai, meu Jesus, a minha ingratidão, aceitai as minhas lágrimas; sofro tudo por Vosso amor, sou a Vossa vítima, sou vítima das almas.
Neste momento cubro Jesus crucificado de carícias; abraço-O, e assim me vou esquecendo do que sofro. Não sei o que tenho em mim; o meu rosto é uma caveira gravada no meu coração; não é uma caveira perfeita; está deformada, apodrecida. Que horror ela me causa à minha alma! Os espinhos, que me cingem a cabeça, transformaram-na só em sangue e os olhos da mesma forma; não só lágrimas de sangue, mas os olhos inteiramente se transformaram em duas fontes de sangue. As chagas das mãos, dos pés, do coração abriram tanto, tanto, que sinto, como se me desaparecesse a carne e os ossos e se gravassem as chagas em sangue coalhado; todo o meu ser é uma massa de sangue. Meu Deus, meu Deus, quanto custa este martírio, quanto me custa a minha dor. Sinto-me como se estivesse neste leito de dor a servir de palhaço, sorrio para todos, enquanto que a alma chora; parece-me que a todos engano, em todo o sentido; mostro-me feliz e alegre, e a minha felicidade e alegria está só no sofrimento e no cumprimento da vontade do Senhor.
Não quero viver mais para mim nem para as criaturas; quero viver só para Jesus; quero que o meu viver seja o sentir da minha alma. Sinto que da terra, das criaturas nenhum conforto possa receber; mesmo os que me são mais queridos, sinto-os frios e gelados para mim. Jesus, Jesus, só Jesus, é Ele que eu quero, é só a Ele que eu pertenço. Não importa parecer-me estar sozinha; o que importa é vencer, é sofrer como quer Jesus.
(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 29 de Agosto de 1947 - Sexta-feira)

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