3 de outubro de 2011

A TUA SEDE DE AMOR É AMOR !

Fiquei nessa cruz crucificada

Pouco depois, lá foi de verdade para o Horto. A agonia da alma deu ao coração fortes impulsos que o obrigou o empurrar o sangue para as veias até as rebentar. A terra foi regada com sangue. Vi Jesus oferecer o cálice a Seu Eterno Pai no meio duma sebe de varas espinhosas; cingiam-No de cima abaixo. Com eles cercado foi Jesus preso e levado para a prisão. Oh! como eram grandes e agudos! Hoje, ia já com a cruz, a caminho dom Calvário, caí e fui pela primeira vez arrastada a grande distância, não pelas cordas, mas sim pelo cabelo. Não deixei a cruz, levei-a arrastada, unida a mim. Quase sem vida, cheguei ao cimo do Calvário; caí desfalecida, com o rosto em terra, junto à cova, que já estava aberta para ser levantada a cruz. Vi o sangue que havia de regar a cruz, encher a cova e correr o Calvário. Fiquei nessa cruz crucificada. De longe a longe, ouvia os gemidos e suspiros de Jesus. Que dor de alma! De vez em quando, sentia o palpitar do Seu divino Coração quase moribundo. E, na mesma ocasião, sentia como que os Seus divinos olhos agonizantes estivessem em minha alma, e, momentos antes de expirar, ficassem por um pouco entreabertos, como que a fitar o Calvário, a Humanidade. Gelou-se-me o peito, e expirei com Jesus. Demorou muito a falar-me. Quando chegou, ou quando se fez chegado, ficou como se mergulhasse em meu coração os Seus divinos lábios, e bebia sem parar; eu ouvia-O a beber sofregamente.
― Minha filha, bebo na tua secura, sacio-Me na fonte do teu coração. A tua sede de amor é amor. Quero beber, deixa-Me beber, mata-Me a sede, que tenho de ser amado. Quando, junto de ti, Minha filha, as almas te pedirem para implorares, para de Mim alcançares graças para elas, pede-lhes, pede-lhes sempre que Me amem, que amem Minha Bendita Mãe. Ama-Nos, filha querida; faz que sejam amados os Nossos Corações. Há tão pouco quem Me ame e tanto quem Me ofenda! O mundo, o mundo, oh!, como ele peca! Ama-Me, ama-Me, repara-Me com a tua dor.
Jesus disse isto e ficou silencioso. Passados momentos, apareceu-me com uma enorme cruz aos Seus Santíssimos ombros e as Suas divinas chagas abertas. Condoída dos sofrimentos de Jesus, disse-Lhe com toda a alma:
― Sou a Vossa vítima; dai-me essa cruz, dai-me essas chagas, passai tudo para mim, quero sofrer eu e quero-Vos, meu Jesus, na consolação.
Jesus passou logo para mim a Sua pesada cruz, deu-me a beijar as Suas divinas chagas, a principiar pela mão direita e a acabar pela do coração. Ao beijá-las, vinham-me de encontro ao rosto chamas de fogo. Ao beijar a do coração, pareceu-me ficar ali colocada, não podia separar-me.
― Tira do teu coração, minha filha, o bálsamo do teu amor, cura-Me todas essas feridas, sê tu a minha enfermeira.
Queria curar Jesus, e não sabia como nem com quê. Forçada não sei por quem, principiei a tirar do meu coração o bálsamo de que Jesus falava, principiei a espalhá-lo pelo Seu divino Corpo. Todo o ferimento desapareceu.
― Que confusão a minha, meu Jesus; eu pobre miséria não sou digna de tal ofício! Curo-Vos com o que é Vosso e não com o que é meu.
Tudo isto se passou, e eu sempre unida ao Coração de Jesus.
― É a tua dor e o teu amor, Minha filha, a Minha maior consolação e alegria. É a tua dor e amor o Meu desagravo e reparação; dá-Mo com alegria, dá-Mo sempre na tua cruz. Sem te separares deste Coração louco por ti, recebe do Meu para o teu, pelo mesmo tubo de amor a gota do Meu divino Sangue; recebe que é a tua vida, a vida que dás às almas. E prepara-te para receberes o teu alimento, a Minha divina Carne. Dou, hoje, essa honra ao teu Anjo da guarda; foi ao teu sacrário, ao sacrário da tua igreja buscar-Me para Me receberes.
Fui obrigada a inclinar-me e a recolher-me. Veio o Anjo com a Sagrada Hóstia, numa patena doirada; era patena de amor. O Anjo pronunciou as palavras “Corpus Domini nostri Jesu Christi”. Não vi multidão de Anjos, mas ouvia o zunir de muitas asinhas e o som mavioso das suas vozes.
― Desceu, desceu e baixou a ti o amor, o nosso Rei, o teu Senhor.
O Anjo da minha guarda ficou em sinal de reverência, ao meu lado.
― Vai, Minha filha, bendiz e ama sempre o Teu Senhor, por tão grandes maravilhas. Bendiz, beija e abraça a cruz, que te dou. Dá-Me toda a dor que te pedi; é o remédio das almas, é a sua salvação. Coragem, coragem; confia em Mim.
― Muito obrigada, meu Jesus. Sede comigo, ensinai-me a amar-Vos, ensinai-me a sofrer. Sou a Vossa vítima.

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(Beata Alexandrina: Sentimentos da alma, 18 de Julho de 1947).

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