20 de julho de 2011

AS MINHAS LÁGRIMAS ERAM DE SANGUE

A missão, que te confiei, é a mais alta e sublime.

Passei deste martírio ao Horto, para ali me unir a mais padecimentos. Foi o meu rosto escarrado, os olhos vendados, mas tinha outros olhos que viam passarem pela minha frente por escárnio, ajoelhando, fazendo grandes continências. Sobre os meus ombros, tinha uma velha capa, sobre a cabeça uma velha coroa, e eu, no maior abatimento, no meio de tantos algozes. Eu digo eu, mas não era eu, era Jesus revestido em mim. Se fosse eu não sofria, porque tudo mereço. Sou muito humilhada, sinto-me desesperada, e reconheço que sou digna de tudo. Mas ver e sentir Jesus sofrer assim, não tenho coração para aguentar! Tenho por vezes que esforçar meus olhos e os meus sentimentos a retirarem-se de tão grande suplício. Quanto sofreu Jesus, que dor sem igual; e tudo por nosso amor. No solo do Horto levantaram-se como que quatro negras paredes de tal altura, que não lhes via o fim; fiquei entre elas, apertada como numa prensa com a visão de todos os sofrimentos. E então de todo o meu corpo saía suor de sangue; fiquei banhada e como nunca só ferida.
Hoje, logo de manhã tive o sentimento de todo o caminho do Calvário. Continuei a sentir todo o corpo despedaçado e em sangue. As minhas lágrimas eram de sangue e pelos lábios e ouvidos saía sangue também. Já perto do Calvário, a um grande desfalecimento de Jesus vi cair sobre Ele uma grande chuva de açoites e forte rancor, parecia infernal. Esta descarga tormentosa deu-se dentro de mim. Senti bem este rancor, mas senti muito mais ainda a doçura e amor com que Jesus tudo recebia. No alto da cruz, continuava o ódio e o rancor dos mesmos. Jesus pode ver com os Seus Santíssimos olhos quase moribundo a lança que bem depressa viria abrir-Lhe o peito e ferir Seu divino coração; à sua frente estava o que ia cravar e do Seu Coração divino saíam para Ele como que ósculos de amor. Esgotavam-se as forças, fugia-Lhe a vida, mas não se esgotava nem Dele fugiu o Seu divino amor.
Nem com o expirar de Jesus se esgotou; estendeu-se pelo Calvário, e do Calvário, e do Calvário, e do Calvário ao mundo como sopro de ar, como perfume delicioso. Eu expirei com Ele e a Ele ficou preso, por algum tempo, o meu coração. Não foi pronto a falar-me, demorou-se. Quando veio disse-me:
― Minha filha, Minha filha, jóia preciosíssima, jóia do mais alto valor para o Meu divino Coração. O ouro de que é feita esta jóia são todas as tuas virtudes; a pureza, a graça, a obediência, a humildade, a caridade e todas as outras mais. As pedras preciosas que a guarnecem, é o amor e a dor. Como estas pedras brilham no meio de ouro fino de tantas virtudes! Que riqueza, que tesouros encerram esta jóia; tem encantos atraentes, tem luz que guia, tem, laços que prendem! Tem amor que Me ama, tem amor que ama as almas; é o preço delas, é delas a salvação, é delas a salvação. Eis a razão, Minha filha, Minha pomba querida, eia a razão por que este tesouro é perseguido., é assaltado; é durante a vida, e sê-lo-á depois da tua morte. Nas perseguições dos cristãos, são mais perseguidos aqueles, que são cristãos a valer, notados de maior virtude e maior graça. Quando há grandes assaltos de ladrões, não vão eles assaltar as pobres choupanas, onde nada podem encontrar; vão aos palácios ricos e poderosos. As riquezas, que em ti depositei, são inigualáveis. O palácio do teu coração possui toda a riqueza, que o Meu encerra. A missão, que te confiei, é a mais alta e sublime. A guerra a ela será pior que do inferno. Tem coragem! É Minha a causa, é Minha a glória, é Meu o triunfo. Quanta mais perseguição, mais luz. A tua vida será para o mundo um raiar de sol puro, de sol brilhante. A tua vida será, através do tempo, para as almas uma estrela, que as guia e conduz a Mim.

(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 28 de Março de 1947 - Sexta-feira)

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