10 de julho de 2011

LEVANTEI UMA PONTA DO VÉU

Eu te abraço minha cruz, com o meu Jesus

Aumentou o peso da minha cruz, e aumenta também, dia a dia, a minha sede de sofrimento, a sede de me dar a Jesus e às almas, a sede de consumir-me, enlouquecer-me e perder-me no amor de Jesus. E é verdade que me sinto queimada; parece que um fogo invadiu tudo. Ah! Se fosse o fogo do amor de Jesus! Se na realidade eu O amasse! Ai pobre de mim!
Tive no dia 11, uma grande tribulação, das maiores da minha vida. Não sei se foi permitido por Nosso Senhor se pelo demónio. Não sei, mas sofri muito. Não sou capaz de mostrar quanto sofri. Sofri resignada. Não fui capaz de fazer várias das minhas orações diárias, cansada de tanto sofrer. Mas o que não perdi foi a minha união a Deus. Abraçada ao meu crucifixo, dizia de alma e coração: eu te abraço minha cruz, com o meu Jesus; eu quero-te, eu amo-te. Meu Jesus, sou a Vossa vítima. Apertava contra o peito a imagem da querida Mãezinha e dizia-lhe: fostes Vós, Mãezinha, fostes, Vós, que no Vosso dia me trouxeste este miminho. Valei-me, valei-me, dai-me um conforto. Pareceu-me ouvir o coração estalar de dor, e depois, sentia como que o sangue me corresse no peito. Vi, à minha frente, tudo o que há de pior, tudo o que há de mais desastroso. Quanto mais oprimida pela dor, mais fortemente o meu brado subia ao Céu. Meu Jesus, aceitai-me parte destes sofrimentos por tais intenções e nomeei-as; e o restante aceitai-o Vós e espalhai-o pelo mundo, meu Jesus, a minha dor. Passou de 24 horas que eu assim sofri, a sós com Jesus sem com mais ninguém desabafar as minhas mágoas. Por mais que me interrogassem, procurei disfarçar, nada disse; calei, calei até não poder mais. Queria chorar, e não fui capaz; assim mais me custava sofrer.
No dia 12, levantei uma porta do véu que tanta dor encobria. Fui confortada e quiseram desiludir-me que tal sofrimento não tinha o fim que eu lhe dava. Fiquei um pouco mais libertada, mas sempre com o coração a sangrar. Tinha a alma e o corpo sem vida. Passaram-se umas horas mais suaves. Depois então recebi o golpe que foi realidade; não foi nada da minha imaginação. Longe de me revoltar, recebi-o, abracei-o: oro e sofro por quem me fere. Perdoo como quero que Jesus me perdoe as minhas culpas. O que eu não quero é ofendê-Lo nem deixar um momento de O amar. Se me dessem, de preferência o amor de todas as criaturas, honras, louvores e senhora do mundo inteiro e nunca mais ser escarnecida desesperada e humilhada contanto que por um só momento eu deixasse de amar Jesus, eu dizia: não, não, sempre não. Quero amar a Jesus sempre oprimida pela dor e humilhada, sempre humilhada. Não posso dizer que o sofrimento não custa; mas é verdade que esta vida passa e o amor de Jesus dura eternamente. Quero amá-Lo, quero amá-Lo.
Tenho sido rodeada por feras e bichos tão feios, tão desconhecidos! Não me tocaram, mas temia tanto o seu veneno! E os demónios com rostos humanos, feiíssimos, por entre elas; os olhos e os dentes causavam terror. Tive quatro combates seguidos; parecia-me ver todo o inferno em mim e à minha frente; ouvia-lhe os seus ruídos e estalos como de lenha verde. Parecia passar por mim todo o fogo infernal. Não me foi possível, de um ataque ao outro, desprender-me daquele inferno. Que cadeia com tão seguras prisões. Nos momentos mais assustadores, quando mais eu temia ofender a Jesus, eu dizia: Jesus, Mãezinha, é de alma e coração que Vos digo: dai-me o inferno se hei-de ofender-Vos; sou a Vossa vítima. Pensava em fugir daquelas cadeias, mas não tinha força. Não queria escutar as feias palavras do demónio, mas tinha que ouvi-las. O coração batia fortemente e eu repetia: não quero pecar. Quando fui libertada, estava num banho de suor. Acrescentei: meu Jesus, que este banho do meu suor seja para as almas com banho de dor e fortaleza que as levem a arrepender-se e a quebrarem as cadeias do pecado. E seja também um banho do Vosso perdão e amor. Sem eu querer, senti em mim, por algum tempo, vontade de voltar a unir-me ao demónio. Só Jesus sabe quanto isto para mim é doloroso. Tudo o que fica dito e não sei dizer tem sido para esta pobre alma e corpo um contínuo Horto e Calvário.
(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 14 de Fevereiro de 1947. - Sexta-feira

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