4 de julho de 2011

A MORTE NÃO FALA DE SI...

Não acredito em mim nem em nada da minha vida...

Se eu, sem desgostar a Jesus, Lhe pudesse dizer que não queria mais os Seus colóquios, não queria ouvir mais uma palavra Sua, de boa vontade o faria. Tenho medo de O ouvir e de comunicar com Ele. Temo e tremo diante de Deus e dos homens. Parece que quero desviar-me de Jesus e não sei como. Vejo ao mesmo tempo e sinto que é impossível esta separação. O que me causa este enfado e temor é eu não me acreditar em mim, nem em nada da minha vida. Minto e iludo-me a mim mesma, minto e iludo a todos os que me são queridos, e ao mundo inteiro.
Podendo eu recordar todas as coisas, só não posso recordar o que foi a minha vida com Jesus. Tudo se encobriu e desapareceu com a morte; neste ponto, parece-me que sei tanto do meu passado como sei do meu futuro. O futuro pertence só a Deus, e o passado morreu. A morte não fala de si, não sabe o que foi a vida.
– Ai Jesus! Que ignorância a minha! Continuo a sentir que tudo quanto me é feito pelos que me são queridos é chorado, é de má vontade. Parece que eles me querem fazer a mim o que eu disse parecer querer fazer a Jesus, separar-me d’Ele por completo. Ai, meu Jesus, não quero, não, essa separação. Queria fugir de todos e ao olhar de toda a gente, só para unir-me a Vós e só a Vossa vida viver. Tive dois combates violentíssimos; eles têm segredos que aqui não posso explicar.
Não pude, não, por algum tempo, levantar os olhos para Jesus e para a Mãezinha; tinha vergonha. Todo o meu corpo era um abismo de podridão, paixões e crimes. Toda a minha ida era uma vida leviana, pensando como e onde ofender a Jesus com as minhas desregradas paixões. Ao terminar o primeiro combate, vi com os olhos da alma o sagrado vaso com as sagradas partículas; não de todas, mas de algumas corria sangue com toda a abundância, que banhava as outras, transbordava para fora e corria pelo sacrário, descendo ao altar. No segundo combate, também ao terminar, vi com os olhos da alma dois corações unidos. Soube por graça do Senhor que era o Coração de Jesus e da Mãezinha. Estavam cercados de espinhos, e d’Eles corria muito sangue. O sangue dos dois juntava-se e caía como se fora uma só fonte, mas com a maior das abundâncias. Dizer quanto eu fiquei a sofrer, não posso, é impossível. Sofria por ver Jesus sofrer de tal forma na Eucaristia, e o Seu Divino Coração com O da querida Mãezinha. Sofria por sentir que era eu que assim Os fazia sofrer, com a gravidade e maldade dos meus crimes. Sofri e sofri infinitamente, por ver que eu, sem nenhum arrependimento, queria continuar a mesma vida de vícios, podridão e desvergonha.
O meu Horto de ontem foi em todo o dia um contínuo envolvimento em toda a aterra. Todo o meu ser eram cavernas apodrecidas, era uma lepra desfeita. Vi-me presa e maltratada, a caminho dos tribunais. Vi-me no alto do Calvário, a descerem-me da cruz, entregarem-me morta nos braços da Mãezinha. Tudo isto me causava agonia e o suor de sangue. De manhã, depois de açoitada, coroada de espinhos e condenada à morte, caminhei para a montanha. O portador da cruz foi Jesus, eu não podia. O peito arquejava, o coração batia com toda a força. Meu Deus, quanta dor, quantos espinhos variados, fizeram mais dolorosos os meus caminhos! Crucificada na cruz, a Mãezinha permaneceu de pé junto a mim. Os Seus olhares de angústia mais enterneceram o meu coração e o fizeram sangrar. O meu brando moribundo só cessou com o consummatum est, com a entrega do espírito ao Pai. O silêncio da morte reinou no Calvário da minha alma.
(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 7 de Março de 1952 – Sexta-feira)

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