13 de julho de 2011

EU SÓ SENTIA A VIDA...

O meu corpo foi o palco, foi o Horto, a Cruz...

Na tardinha de ontem, senti Jesus, sentado dentro em mim, cabeça inclinada, olhos baixos, quase cerrados, a chorar amargamente. Este fitava, via coisas de grande destruição, que Lhe causava grande amargura. Levantou-se em meu coração uma montanha mundial; estava cheia de feras que se atiravam para ferir Jesus. Por entre aquela montanha, nasceram grandes varas de espinhos que serviam de suplício para o corpo Sacrossanto de Jesus. Pelos Seus divinos olhos e ouvidos principiaram a sair gotas de sangue. Foi tal a dor do meu coração, que me parecia abrir-me o peito, e ele, louco pela dor, sair para fora. Tinha momentos que não podia respirar; quase perdia a vida. Repetiu-se depois., a cena do lava pés. Digo repetir, porque já não foi a primeira vez. Vi Jesus com a toalha sobre os ombros, bacia na mão, a lavá-los a Seus discípulos, incluindo aquele, que ia entregá-Lo. Quero assemelhar-me a Jesus; quero, ainda que com muito custo pedir sempre, sempre por aqueles que me ferem. Quem é Jesus, e quem sou eu? Como sofreu Jesus, e como sofro eu? Pobre de mim, que miséria a minha; não sei sofrer, não sei imitá-Lo!
Passei daqui, no mesmo momento, ao Horto; lá fui sentir a cruz antecipada, o coração aberto; veio para o Horto o Calvário. Vi uma massa de almas a desperdiçarem o Sangue de Jesus, com os Seus sofrimentos, com a Sua morte. Vi algumas a aproveitarem de tudo o que era de Jesus, de tudo o que era dor. Vi um que subiu acima de todos e foi mesmo beber no sagrado lado, à chaga do Seu Divino Coração. O meu corpo foi o palco, foi o Horto, a cruz; Jesus, à massa das almas que O desprezavam e as que d’Ele se aproximavam. Hoje, quanto me custou a seguir o Calvário! Que desfalecimento tão grande! Parecia-me caminhar mais de rasto do que de pé. De passos a passos, caía. O meu corpo era um esqueleto descarnado, coberto de sangue. Queria respirar e não podia, sentia como se me arrancassem o coração e as entranhas. Cheguei ao cimo, vi sobre a terra a cruz, onde ia ser cravada, ao lado o martelo e os cravos. Fui crucificada, erguida ao alto na cruz e fiquei num negro cárcere sem saída; esse cárcere era um mar imenso de dor sem fim. Eu só sentia a vida que vivia aquele sofrimento, aquela noite escura que me mostrava tudo o que era dor, tudo o que era maldade. Ali sofri com Jesus, ali senti os Seus suspiros, ali recebi em meus lábios a esponja. A minha sede era outra, Não foi com a esponja saciada, a minha sede era do coração, era uma sede indizível. Cresciam as muralhas daquele mar imenso, daquele mundo de dor, e, ali presa, tive que agonizar. Ao voar de mim aquela vida que era a verdadeira vida fiquei em completa liberdade, romperam-se aquelas negras muralhas e fiquei outra. Principiou-me o coração a arder em vivas chamas e falou-me o meu Jesus.
― Minha filha, em trono de Rei estou Eu em teu coração, e sou, na verdade, Rei e Senhor de todo o teu ser. Sou teu esposo fiel, mas não estou só, está comigo o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Dizer-te a Nossa consolação, como estamos aqui deliciados com os encantos, com as belezas de tão variadas flores, de perfumes atraentes é escusado; só à vista clara da luz divina, da luz eterna, numa visão beatífica, o poderás compreender. Fui Eu que rasguei, que rompi as muralhas, onde estavas encerrada. O seu significado é aquele: quando pela Minha morte resgatei as almas; resgatei-as do pecado, e deixei-as em plena liberdade de entrarem no Céu.
(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 28 de Fevereiro de 1947 - Sexta-feira)

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