13 de julho de 2011

PARA A ALMA NÃO HÁ AMIGOS NA TERRA...

Queria amar até à loucura!...

O meu espírito tem sido, nestes dias, um verdadeiro teatro representado por Satanás; tem trabalhado bem. Tem-me atormentado tanto! Tem-me mostrado todas as falsidades, todos os caminhos errados, tudo perdido. Pobre de mim, se Jesus, e a querida Mãezinha não me amparam!
De manhãzinha, a alegria, o trinado das avezinhas, a darem glória ao Senhor, é para mim motivo de maior dor. Os seus gorgeios são golpes, que mais vem avivar as feridas da minha alma. Oh! Como eu sinto todo o meu ser dilacerado! O aproximar-se da primavera não é para mim de alegria, como para as avezinhas. Para mim, apresenta-se negra, cada vez mais negra. As árvores a cobrirem-se de flores que nos fazem admirar o poder de Deus e nos obrigam a prestar-Lhe o nosso culto de louvor por tantas maravilhas, para mim são finos espinhos que me ferem, são flores murchas e negras, são flores da morte. O que é que me alegra a alma? A vontade do Senhor. Essa, sim, a vontade do meu Deus, dá-me alegria, por mais doloroso que seja o meu martírio. Tantas quantas vezes sinto em meu coração, os punhais, as espadas a cortarem-me finamente, eu abraço o meu crucifixo. E ao dizer-Lhe amo-Vos, Jesus, repito-Lhe sempre: sou a Vossa vítima. Sim, e eu queria amar até à loucura, quero amar o meu Jesus, sem o fim da recompensa do Céu. Não me interessa o prémio que me dá Jesus; quero amá-Lo a Ele; só a Ele sobre tudo, porque Ele é digno de amor. É o fim do meu viver, é o fim da minha dor Jesus e as almas; mas é sempre Jesus, porque as almas a Ele pertencem.
A minha razão não está conforme ao sentir da alma; a alma sente-se humilhada, sozinha, sem ninguém, sem uma luz, sem um apoio, sem um conforto da terra e do Céu. Para a alma não há amigos na terra; tudo morreu, e até o Céu deixou de existir. A razão, sem se sentir alegre, mostra-lhe, quero provar-lhe que tudo isso tem; o Céu que existe, Jesus e a Mãezinha que não lhes faltam na terra que ainda tem amigos firmes ao seu lado. Que luta renhida que só causa a morte; a alma em desarmonia com a razão! Meu Jesus! Sou a Vossa vítima; continuai a esvaziar-me, Vós, só Vós a encher-me, isso me basta. Nas horas tristes deste viver, perdida no meio do mar, arrastada pela violência das ondas sinto como se viesse alguém que tem todo o poder sobre elas, a deitar-me as mãos; levanta-me e fica-se a fitar-me com compaixão. Parece-me ser Jesus; poisado sobre as ondas, não se mergulha nelas, não se molha, e não me deixa a mim ir ao fundo. A minha alma fita os seus olhos naquele olhar terno, pede-lhe compaixão, é presa em Seus braços, não quer desprender-se. Isto conforta-me por um pouco mas fica-me sempre a dor vinda do temor. Ai de mim, se Jesus me deixa! Quando a tempestade é mais desastrosa e as nuvens negras mais me escarnecem, para darem lugar a maiores dúvidas, invoco o Divino Espírito Santo, peço luz ao Céu, principio por examinar a minha consciência, e logo principia a minha alma como que a nadar num mar de paz, uma paz sem consolação, mas paz que dá a vida e obriga a caminhar. E vou seguindo por entre as trevas, na confiança de encontrar Jesus.
(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 28 de Fevereiro de 1947 - Sexta-feira)

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