9 de julho de 2011

COMO UMA CASA SEM MOBILIA

Cada passo que dou é em falso...

Antiga entrada para casa da Beata Alexandrina 
Faltam-me as forças; o sofrimento impede-me de poder falar. Será o sofrimento, meu Jesus, ou serei eu que não sei sofrer e o pouco parece-me muito? Que luta renhida no meu espírito! Que mar de dúvidas! Que vida a minha tão cheia de incertezas! O demónio tem tentado assaltar-me, mas, acorrentado, não o tem conseguido; não veio com os seus tremendos combates. Quando o vejo a formar salto, para se atirar a mim, fico assustada e com receio que alguma vez sempre vença e me leve ao pecado. Ele tem tantas formas de nos atormentar a alma! Eu já a tenho tão dorida, sem ser por ele; parece que a tenho em sangue: ó meu Deus, ó meu Jesus, tudo o que sofro é por Vós, é pelas almas. Tenho olhos, mas não para ver nas negras trevas que vou passando. Cada passo que dou é em falso, é um abismo negro, onde caio, e o meu desfalecimento auxilia-me de boa vontade a deixar-me mergulhar neles. Morro de dor, morro sem remédio nestes abismos pavorosos de cegueira. Sinto os punhais, sinto as lanças a cortarem-me o coração tão lentamente, tão finamente. Quantas vezes tenho a impressão de ouvir nos meus ouvidos o cortar das carnes; é arrepiante, a dor sufoca-me, tira-me a respiração. E logo em espírito elevo ao Céu a minha oferta de vítima. Aborreço o mundo com tudo o que nele encerra; não porque tudo deva aborrecer, mas sim porque de tudo quero e devo desprender-me: sinto como se alguém dentro de mim, ande a espanar, a polir, a assear a habitação do meu coração, da minha alma; tudo é deitado fora, sinto-me vazia, é uma casa sem mobília. Este vazio é para se encher e quando sinto que se enche de uma vida de que não é falar, uma vida superior a esta vida, a alma vê o coração cheio, transbordar e pelo centro sais grandes labaredas que sobem ao ar. Nestes momentos fico como que a dormir nesta vida e como que se do mundo desaparecesse. Volto a sentir o vazio e as ânsias devoradoras do amor de Jesus. E de verdade queria mesmo devorá-Lo, possuí-Lo só a Ele e nada mais. Vós, meu Jesus, Vós e só Vós e nada mais. Sinto logo o abandono de todas as criaturas mesmo das mais queridas. Mas sou eu mesma a querer-Lhes ser grata, agradecida; mas não querer viver delas, para só de Jesus viver. São cortes dolorosos, são indizíveis sofrimentos. Mas se eu assim amasse a Jesus, se eu soubesse que O amava quase deixaria de sofrer.
Ontem, ao cair da noite, de surpresa, senti-me atada e arrastada por grossas cordas que me cingiam o pescoço; obrigavam-me a ir com o rosto a terra até o ferir. Logo me introduzi por um túnel de todos os sofrimentos formado; ali não entrava luz nem conforto. Caminhei, fui parar ao Horto; pouco depois recebi em meu rosto o beijo de Judas. Que beijo cruel, mas que ainda mereceu dos lábios bondosíssimos de Jesus a palavra terna de amigo. Que doçura a do seu coração divino: se todos a compreendessem! Os modos, os olhares de traidor eram desconcertantes e desesperados. Quando Jesus chegou ao fim do Horto, mesmo na saída, debaixo daquela chuva de maus-tratos e de crueldades eu senti, dentro do meu peito, a Seu divino coração palpitar tão aflito pela dor e pelo cansaço que já parecia dar ali a vida. Vi, pouco depois, a lareira onde se aqueciam os inimigos de Jesus e uma falsa e provocadora mulher que fazia o lugar de correio, onde S. Pedro se aquecia também; era por eles interrogado e trocavam uns para os outros seus olhares maliciosos. O galo cantou; na alma senti o seu canto e tive visão do abrir e fechar do seu bico.
Retirou-se S. Pedro para chorar; as lágrimas corriam em meu coração como dois regatos. Se eu tivesse a mesma dor de arrependimento dos meus pecados!
Hoje já no Calvário ecoou dentro em meu peito o som descontrolado do bater dos cravos; fiquei com os meus pulsos e pés abertos como se fosse por eles trespassados. Não senti ali só os maus-tratos de Calvário, mas sim os de todo o mundo. Tinha uns olhos que tudo contemplavam; tinha uns ouvidos que não só ouviam os insultos do calvário, mas sim os de toda Humanidade. Os gemidos e o brado de Jesus com o Seu coração cheio de amor e doçura não eram um convite, um chamamento só ao calvário, mas sim ao mundo, a todo o mundo. Jesus com a sua agonia e morte queria salvar a todos. Os lábios de Jesus estavam cerrados, mas oh! Como falava e amava o Seu coração divino. Eu pecava com o mundo e sofria e agonizava com Jesus; e ao mesmo tempo ansiava possuir para mim o mesmo mundo.
(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 7 de Fevereiro de 1947. – Sexta-feira)

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