20 de julho de 2011

QUE AMOR LOUCO, QUE AMOR SEM IGUAL

28 de Março de 1947 - Sexta-feira

A morte vem, aproxima-se para breve, mas é uma morte que, me deixa viva, só o corpo morre; são os pecados, é o mundo inteiro a matar-me, mas não pode matar tudo. A vida que sinto não morrer é a vida superior, é a vida de triunfo, é a vida que faz viver e governa todas as vidas. Sinto que ela está em todo o mundo como sopro de ar espalhado. Sinto que a esta vida pertence todo o Céu e toda a terra. Sinto imensa necessidade de falar desta vida, de a fazer conhecida e não sei; limito-me apenas a dizer; é a vida de graça, é a vida de amor. Mas oh! Que amor louco, que amor sem igual! Eu queria amar esta loucura de amor, com amor e loucura semelhante. Mas, ó meu Deus, como estou longe! Sinto que se trabalha dentro em mim; toda a mobília da minha casa, isto é, do meu corpo saiu fora. Toda a imundice, todo o pó é limpo, mas não por uma só vez; tem sempre de se voltar atrás e limpar novamente. O meu vazio é tão grande; só o Céu o pode encher, só Jesus com todo o Seu amor o poderá satisfazer. O mundo não me enche, nem milhões deles, se os houvesse. Sinto-me como a querer fugir da terra, a aborrecê-la, a odiá-la; não me pertence, quero desaparecer dela. Ando como se fosse um sopro a vaguear nos ares. Quero ir para Jesus, encher este vazio. Mas Ele está tão longe. Ai, a minha Pátria! Quanto mais a anseio, mais a vejo fugir. Daqui nascem os meus desânimos e desalentos; mas estreitando contra o meu peito o Crucifixo, logo me levanto. Hei-de vencer com Jesus. A cegueira é tanta, não me deixa ver, fico como desatremada nos seus caminhos. Mas a minha confiança, tantas vezes contra toda a esperança obriga-me a crer: sou de Jesus e da Mãezinha. Depois de tanta luta, tanto sofrer, virá o Céu. Sei que o não mereço, mas espero não ser por Jesus, nem pela Mãezinha abandonada.
Haverá alguém que só Neles confie e fique Deles ao abandono? Oh! não! Oh! não; pensar assim, seria ferir Jesus. Quero ter o meu espírito sempre preso, açaimado para não perder a minha união com Deus. Se assim não for serei como animal mais feroz e sem freios; e no meio do mar doloroso martírio de alma e corpo não perder por um só momento que seja a união com o meu Deus. Quero separar-me tanto tempo Dele, como Ele se separa de nós com os Seus olhares divinos, e como a dor se separa do corpo. Não posso viver sem Deus; não posso viver sem a dor. Queria ver toda a humanidade a viver a vida íntima com Nosso Senhor; estou certa que o pecado desapareceria da terra.
O demónio não cessa a sua guerra contra mim; o meu espírito é com dúvidas consumido. Quando assim é, Jesus vem por uns momentos suavizar a minha alma com o Seu amor e a Sua paz; fico mais forte para a luta. Passou o quinto aniversário que Jesus deixou de manifestar em mim a Sua Santa Paixão e deixei de me alimentar. Só quero o que Jesus quer. Mas ó que pena e que saudades. Senti durante três dias como se todo o meu ser tivesse bocas para comer; tudo ansiava. O alimento que eu desejava, que era tudo, sentia que todo o mundo o comia; para mim só me bastava a dor e a saudade. Meu Jesus, sou a Vossa vítima. Os olhos do corpo não choravam, mas os da alma suspiram o lugar; foram lágrimas dolorosas, mas sempre conformes com a vontade do Senhor.

(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 28 de Março de 1947 - Sexta-feira)

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