21 de julho de 2011

EU SENTI E VI TUDO...

Que contraste, que coisa que não sei explicar...

Venha sobre mim o auxílio do Céu; sem a força divina nada poderei dizer, não posso mover os lábios para falar. A cada movimento, a cada palavra, sinto como se me arrancassem o peito e o coração. Confio; se Jesus quiser, conseguirei dizer alguma coisa do que me vai na alma. O meu corpo desfeito pela dor tem sido um montão de podridão a ferver. Este montão parecia-me a mim ser toda a humanidade estragada, a ferver de apodrecida. A morte correu para mim; sentia vir, senti-me morrer. Senti como se me separassem a alma do corpo; mas esta morte não deu ao corpo as cinzas de um cemitério.
Pouco depois de morto e sepultado, eu vi-o todo formosura, glorioso, a triunfar da morte. Quanto custa ao corpo separar-se do espírito; ele subiu, voou para o alto, e via que bem depressa de novo se unia àquele corpo que deixava frio, mais frio que o gelo, desfigurado, despedaçado, quase sem carne. Que contraste, que coisa que não sei explicar! Ele via que, de novo, se juntava, mas até esse momento até chegar a hora dessa separação, que universo de dor, que mar de martírio! Este corpo que morria e era glorioso, este espírito, que voava, estava em mim, mas não era meu; eu era apenas esse montão de morte apodrecida, nojenta, horrorosa, que causava a morte a este corpo glorioso. Eu não podia enfrentar tais coisas. O espírito puro, que podia voar com o seu corpo glorioso, introduzido, transformado nesta morte imensa, no meu corpo mundial apodrecido! Eu queria separar uma coisa da outra, e não podia; eu queria desviar o puro do imundo, e não conseguia; tive que morrer e ver o corpo e o espírito puro coberto da mais negra podridão. Sinto necessidade de querer dizer muito neste sentido, e não posso, nem sei dizer melhor. Senti que, depois da morte, dessa morte gloriosa, desci como que a um inferno, mas não a um inferno de fogo, de maldições e tormentos mas a um inferno só de tremenda escuridão, onde não entrava luz nem alegria; era um inferno de cegueira e ansiedade. Senti como que Nossa Senhora estivesse em mim, contente de braços abertos, como quem se sustenta no entre aquela multidão, como uma pomba batendo asas transmitindo a mesma alegria e fazendo como voasse essa multidão toda. Mas como, meu Deus! Vivo e não vivo, sou eu e não sou, estou no mundo e parti. Senti que desci a esse inferno, mas, de novo, saí, e que, atrás de mim, levava um bando sem número de pombas brancas que voavam atrás de mim, não digo bem, voavam esses seres que eram corpos atrás desse corpo glorioso. Eu senti e vi tudo e fiquei sempre mergulhada na dor, na cegueira e na morte. O que sofreu o meu pobre corpo, nestes dias, só Jesus o sabe. As agonias e torturas da minha alma só Ele as pode compreender. Este martírio de alma e corpo impediu-me de poder orar, de poder meditar na paixão de Jesus. Fitava-O na cruz rapidamente e só dizia: o que sofreu Jesus por meu amor; sofreu tanto que morreu por mim! E terei eu coragem de negar algum sofrimento de alma ou do corpo! Oh! não, meu Jesus; com a Vossa graça eu nada Vos negarei. Sou a Vossa vítima, noite e dia. Ó Mãezinha, pelas Vossas dores, pelo que sofrestes, junto à cruz do Vosso e meu Jesus, permiti que me associe a Vós e dai-me coragem e amor para o meu sofrimento.
No princípio da tarde, de ontem, senti como se a minha alma fosse presa, insultada, maltratada; era um nunca acabar de martírios. Nas outras quintas-feiras tenho sentido um ou outro sofrimento, mas neste senti muitos, se não foram todos. Senti e vi com a maior de todas as maravilhas; Jesus dar-se para nosso alimento, partir e ficar connosco. Que maravilha, que amor tão profundo! Vi o lava-pés e o discípulo amado inclinado sobre Jesus. Sentia e via o desespero de Judas. E vi-o partir à frente dos outros para O ir entregar. No Horto senti e vi beijar e apontar para Jesus para poder ser preso. Mas, antes da prisão, senti e vi a Sua grande aflição, a rolar pela terra, a suar sangue; o Anjo a confortá-Lo, e ele, com o cálice da amargura, a enchê-lo de sangue que lhe saía dos Seus divinos olhos, ouvidos e de todo o corpo. Vi, depois, à saída do Horto que O acompanhavam uma grande multidão de soldados com armas, homens com paus. Meu Deus, como eles maltratavam a Jesus! Como Ele já ía desfigurado e desfalecido! Vi S. Pedro a negá-Lo, mas sentia que aquela negação foi feita só por temor.
O galo cantava uma e outra vez. Ele chorou copiosas lágrimas. Oh! como foi grande o seu arrependimento! Custou-me tanto ver Jesus, de tribunal em tribunal, tão mal tratado, e por fim ter de O deixar sozinho na prisão. Ele já não parecia Jesus; os maus-tratos e a tristeza tinham-Lhe roubado toda a beleza. Deixei-O quase moribundo em tão escura prisão. E assim moribundo O senti hoje a seguir os caminhos do Calvário. Parecia-me que todas as feridas do Seu Santíssimo Corpo estavam no meu e ainda assim era chicoteada e arrastada; não havia compaixão para mim nem para o Nosso Jesus. Os espinhos da Sua Santíssima Cabeça feriam-me a minha e também me feriam o coração. Fui subindo e quantas vezes desfaleci com Ele e com Ele ia a expirar. Jesus ia dentro em mim tão ansioso para a morte como cordeirinho sequioso para a corrente; queria morrer para dar a vida. Na cruz, eu sentia como se o sangue das Chagas de Jesus corresse nos meus braços, pés, peito e cintura, como se tivesse chagas também. Senti, dentro em meu peito, um mundo tão cruel e tão duro que mo abriu, de cima abaixo. Não aceitava o amor de Jesus, não pude aguentar; não bradei como Jesus: meu Pai, porque me abandonaste, mas disse: ai, meu Deus, meu Deus, valei-me. Sei que o disse alto; não tive força para me conter a dizê-lo baixo. Neste transe doloroso, fiquei como se expirasse com Jesus.

(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 4 de Abril de 1947 - Sexta-feira Santa)

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