3 de julho de 2011

A MINHA IGNORÂNCIA NADA SABE DIZER

A vinha dos enxertos do meu coração é tão grande!

Está em sangue, todo em sangue, é uma chaga viva, profunda e dolorosa, o meu coração; não cicatriza um só momento. Tem segredos a minha dor, o meu martírio. Os espinhos, que me ferem, são variadíssimos. Ao sentir-me assim tão ferida, desfalecida e incapaz de resistir a tanta dor, os meus desabafos vão para Jesus e para a Mãezinha, e digo-lhes: ó Jesus, ó Mãezinha, quem poderá resistir a tanta dor? Mas, lembrando-me logo que é d’Eles, dos Seus divinos Corações que me vem a força, acrescento logo: ai, já sei, é de Vós que eu tudo recebo, é convosco que em tudo venço. Perdoai-me, perdoai-me. E assim passo os dias e as noites numa indizível angústia. A minha ignorância nada sabe dizer. A morte não fala, mostra-se a si mesma, tal qual é. Só sentindo a morte total em todas as coisas, nós sabemos compreender o que é a morte, a morte real.

Novas tentações se repetiram em mim.

Meu Deus, meu Deus, pavoroso Calvário e por vezes pavoroso estado de alma! Eu não as digo, tais quais elas são. Tenho medo, muito medo de escandalizar. Eu sou a autora de todos os males, sou um monstro de podridão e de vícios. As paixões desordenaram-me, levaram-me à desvergonha e loucura. Parece-me que as minhas confissões são nulas e as minhas comunhões sacrílegas. No fim de tão tremendas lutas, a dor do meu coração é superior a toda a dor, é infinita. Se por um lado a alma e o coração choram, por outro a loucura dos prazeres é de tal ordem, cega-me de tal forma que não olha à ofensa feita ao Senhor. Não penso nem me importo do Seu perdão, mas sim busco com toda a maldade e veneno tudo quanto possa satisfazer os meus desejos infernais; todo o meu ser é loucura, é prazer e é inferno. E então sinto Jesus a repelir-me. A minha alma vê-O de face voltada, Ele não pode ver em mim tanto crime. Pobre de mim! Nestes momentos, quase lhe podia chamar desesperadores, se não fosse a graça do Senhor. Eu fito a imagem do Coração Divino de Jesus e parece-me que Ele me olha com olhares repreensivos e de justiça. Fito o rosto imaculado da Mãezinha, e, apesar de Ela estar inclinada para mim, parece-me que Ela nem para mim olha e fita os Seus olhos misericordiosos para lugares opostos e não para onde eu estou. O que fazer a isto, meu Deus? Renovo o meu acto de abandono e a minha entrega de vítima e vou repetindo que amo os Seus Divinos Corações, que Lhes quero e que por Eles tudo aceito, a parecer-me mesmo que nada disto é assim. Vou sofrendo, sofrendo e confiando, sempre sequiosa de mais e mais sofrer, de mais e mais amar. Quero sofrer e nada posso sofrer.

A vinha dos enxertos do meu coração é tão grande! Eu não tenho vida para lhes dar a vida. A tempestade não cessa, a querer destruir, derrotando, deitando a terra os seus ramos verdes e viçosos. A morte lá vem de longe, de encontro ao meu coração. Ele vê-a e estende-se para ela e receber todas as suas crueldades.

Ontem, transportada ao Horto, o meu coração fez-se como uma nuvem que, em vez de absorver água, absorvia toda a dor e martírio, dor e martírio estes que se transformavam em sangue que ia regar todo o Calvário e nele a humanidade inteira.
(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 22 de Fevereiro de 1952 – Sexta-feira)

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