19 de julho de 2011

DOIS CORAÇÕES NUM SÓ

O meu brado de agonia mal se ouvia no Calvário

O dia de S. José passei-o mais aliviada dos sofrimentos da alma; não senti gozo nem alegria, mas sim suavidade. Ao cair da tarde veio de novo a noite escura, as amarguras e agonias da alma. Sofri por não ter sofrido e abraçado Jesus dizia-Lhe: não soube amar-Vos nem ter para Vós carinhos; parece que hoje não vivi; meu Jesus, sinto-me como se hoje não estivesse no mundo; não posso viver sem a dor da alma e do corpo; se ma tirais, não sei viver, não posso estar aqui. Ó Jesus, ó Jesus, junto a Vós abraço a minha cruz com todo o meu sofrer, não me tireis a dor, dai-me conforto; só a dor é a vida e a alegria dos meus dias. Sou Vossa, ó Jesus, sou a Vossa vítima.
Na tarde de ontem, sentia torcer-se e espremer-se a minha alma. Num rápido momento, senti que o meu coração se sentia em dois pedaços; um ficou a ser o Coração de Jesus e outro o da Mãezinha. O de Jesus segui para o Horto dentro de mim; o da Mãezinha ficou desfeito em dor e em lágrimas, só o amor foi a acompanhar Jesus. Como eu sofri, ao ver na dor que ficou o da Mãezinha! Caminhando sempre, sempre fiquei unida àquela dor, e, na mesma união de dor, ficou Jesus. No Horto, senti ao meu pescoço grossas cordas que mo apertaram e cortaram; até quase nele ficarem escondidas; por elas foi o meu rosto levado ao chão e nele ferida e pisado. De lá vi, ao longe, uma árvore, na qual estava dependurado Judas; dela o vi cair ao solo, rebentar, e, no mesmo solo, se espalhar o que o corpo dele continha. Foi a venda, a entrada de Jesus, o beijo traiçoeiro que o levou àquele acto, àquele desespero. Tudo senti na minha alma, como senti o amor de Jesus, a enfrentar toda aquela maldade. Que indizível ternura, amor e compaixão! Com tal visão foi tão espremido o Coração divino Jesus, foi tal a Sua amargura, que encheu o cálice; transbordava fora; o Seu sangue divino corria pelo Horto.
Hoje passei todo o caminho do Calvário, sem nele aparecer um raiozinho de luz. Caminhei revestida de toda a maldade humana. De um e outro lado, surgiam rancores, almas sem dó nem piedade de mim; fitavam com ódio e desespero. Era tal a sede de amor por todo o sofrimento, que de amor se formava como que um canal que toda a dor recebia e toda a maldade fazia desaparecer. No alto da cruz, este canal de amor continuou e tudo absorveu para si; parecia ter braços que abraçavam.
As chagas rasgavam-se, os nervos encolhiam-se, e eu morria de cansaço e de dor. O meu brado de agonia mal se ouvia no Calvário; a fortes impulsos do coração eu subia ao Céu. No calvário tudo passava despercebido; o brado moribundo já não passava pelos ouvidos nem penetrava nos corações. Com a violência da dor e o impulso do coração, ele foi subindo, mas o Céu tão fechado e com nuvens tão negras pareceu não o receber, rejeitá-lo também. Eu agonizei e de mim voou a vida que o foi abrir. Pouco tempo depois, caiu sobre mim uma chuva d fogo, a qual me abrasou tanto que não podia resistir. Mas logo acudiu Jesus, deu-me a Sua força divina e disse-me:
― Minha filha, Minha filha, a ti veio o Meu amor, a ti desci com todo o Meu fogo divino, em ti vivo com todo o amor, porque com todo o amor por ti sou amado. Amas-Me, quando choras, quando sorris; amas-Me na dor e na alegria, amas-Me no silêncio ou falando, amas-Me em tudo; dia e noite, sobem ao Céu, em cada momento, os teus sofrimentos, o teu amor. Estou no teu coração como num braseiro do maior fogo, das mais vivas chamas. Amas-Me; amas-Me; confia em Mim. Dou-te as ânsias de amor, faço-te sentir que não Me amas, para que por ti as almas anseiem amar-Me e conheçam que não Me amam. Diz, Minha filha, diz que é um queixume de Jesus, que é muito pequenino o número das almas que Me amam com verdadeiro amor, com amor puro. E tantas que não é por Me ofenderem gravemente, mas estão como insectos sem pernas e sem asas, que, só rolando, mal saem do seu lugar; e assim vivem e assim morrem.
― Ó meu Jesus, a esse número pertenço eu também; tende dó de mim, vede a sede que tenho de Vos amar, vede que quero voar para Vós e só para Vós quero viver. Mas sei Jesus que estas ânsias, estes desejos não me pertenciam, nascem de Vós, em mim só miséria aparece.
― Assim é, Minha filha; mas tu cooperaste com a Minha graça, deixaste-Me trabalhar; acendi em ti o fogo, e foi como por rastilho rapidamente, e aqui estás neste Calvário, como bomba sempre a explodir. Aqui te coloquei para a dor e para o amor. Espalha, espalha, infunde nas almas o Meu amor e dá-Me com alegria a tua dor que é dor de salvação. Estiveste Minha filha, sobre o inferno; foi para te mostrar no perigo que estão os pecadores, o maior número das almas que existem na humanidade; não se arrependem, não deixam o pecado. Eu continuarei a pedir sempre o teu sofrimento; serei como um mendigo, que não cessa de pedir. Quero que digas, Minha filha, que Meu Eterno Pai espera bem pouco tempo pela reconciliação do mundo, pela vida pura de oração e penitência dos homens. Ai dele, pobre mundo, se depressa não vem a Mim e deixa seus crimes. Em breve, muito em breve será castigado. Acode-lhe, acode-lhe, esposa querida; vê que são Meus filhos.
Jesus dizia isto e chorava.
― Meu Jesus, são Vossos filhos e filhos do Vosso sangue divino, mas se o meu sofrimento os pode salvar, aqui me tendes, Jesus; dai-me o que quiserdes e não quero que me peçais. Sou a Vossa vítima, quero a Vossa força e graça. E não choreis.
Jesus deixou de chorar e disse-me:
― Quero que sofras, vítima inocente, mas quero pedir-te o sofrimento; com isso dou lição ao mundo; um Deus pedir a uma criatura Sua para lhe salvar os Seus filhos.
― Meu Jesus; e os meus sofrimentos nada valem, se o mundo for castigado?
― Valem, valem, filha amada; as almas são salvas mas salvas pela tua dor e não pelos seus merecimentos; são salvas à força, não Me dão a glória que deviam dar; mas são salvas, vão amar-Me eternamente, embora em lugar mais baixo, pela falta dos seus merecimentos. Dá-Me dor, dá-Me dor, Minha filha. Para ma dares com mais força e coragem dou-te Eu a ti a vida de que tu vives, a vida da tua dor, uma gota do Meu Sangue divino.
Dito isto, logo em Suas divinas mãos vi o Seu Coração abrasado em labaredas de fogo; por entre elas caiu no meu a gotinha do Seu preciosíssimo Sangue. O meu coração logo se dilatou e ficou ofegante. A força, com que palpitava, fez correr em todas as minhas veias aquele Sangue. Foi o que eu senti, e Jesus o confirmou.
― Minha filha o teu coração está aberto pelos punhais, como o meu foi pela lança sangra sempre e foi por esta chaga que o meu Sangue divino entrou. Ó maravilha no mundo nunca vista; só em ti foi operado tal prodígio! Todo o Céu com os seus Anjos se regozija, se alegra ao ver tal maravilha. São os impulsos de amor que levam a correr por todas as tuas veias o Meu Sangue divino. Vai, esposa querida, vai, e dá esta vida às almas; que é a vida do Céu. Vai para a tua dor, vai para a tua cruz, é este Sangue a tua força, o teu amor no teu martírio. Coragem, coragem! Confia e vai em paz.
― Obrigada, meu Jesus. Não quero que um só momento cesse o meu agradecimento.
—*—
(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 21 de Março de 1947 - Sexta-feira)

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