“Quem sois Vós Senhor, e quem sou eu?”

Tive dois combates com o demónio; reduziu-me ao mal, ensinou-me todas as maldades, preparou-me leitos de prazeres. Depois do pecado logo se transformaram em leitos do inferno. Que horror, que desespero! Tantos sofrimentos, ódios e maldições! O prazer fugiu e levou-me com ele a graça de Deus, fiquei mais miserável que os próprios demónios. Abracei-me ao crucifixo e envergonhada só disse: meu Jesus, sou a Vossa vítima.
Na quarta e quinta-feira, quase em todo o dia, vi e senti a cabeça Sacrossanta de Jesus cravada de agudos espinhos, tinha-a apoiado sobre a mão, o que sempre impediu de eu Lhe ver os Seus divinos olhos. Só com a diferença: ontem de tarde, já pela noite dentro, aquela posição de Jesus levou-me ao Horto e ao Calvário, levou-me a ver todo o martírio. Vi Jesus no Horto a tremer e a suar sangue; vi os Seus cabelos colados ao rosto; vi Judas beijá-Lo. Até nos cabelos se distinguiam; uns de inocente, outros de maldição. Vi-O no Calvário, já na cruz e o sangue avançar por cima da cintura. Ali fiquei com Ele; e hoje ao mesmo lugar O fui encontrar. Vi-O crucificar, vi a cruz; não tinha lugar para mais espinhos; todo o Seu divino corpo ferido ali neles era desfeito. Custou-me tanto ver assim Jesus! Depois senti-O a Ele em agonia; e, ao pé da cruz, o Coração da Mãezinha a estalar de dor com mais três corações amigos, associados à dor da Mãezinha, que, cheia de agonia, levantava as mãos para Jesus, chorava e quase de dor expirava. Principiei a ver e a sentir a cabeça de Jesus a pender, a inclinar-se sobre o Seu peito e os Seus Santíssimos braços a despregarem-se da cruz. Jesus estava morto. E eu com aquela visão e sentimento pareceu-me morrer também. Já não ouvia o Seu brado e deixei de sentir a dor da Mãezinha. Senti inclinar-se a minha cabeça, desprenderem-se os meus braços, depois do corpo ter gelado. Não sei a quem foi entregue.
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Alexandrina Maria da Costa: “Sentimentos da alma”, 2 de Maio de 1947 - Sexta-feira)
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