27 de julho de 2011

UMA CARTA DA BEATA ALEXANDRINA AO PADRE MARIANO PINHO

Balasar, 14 Maio de 1936

            Viva Jesus!
            Tem-me custado muito a passar todo este tempo sem umas palavrinhas do meu paizinho, para me darem força e alento, nestes dias que eu tenho vivido. Ai, meu Jesus, como têm sido tão atribulados!
            É bem verdade que custam mais os sofrimentos da alma do que os do corpo. Apesar de eu não sentir nenhumas consolações espirituais, ao recordar-me das santas lições que me tem dado, sinto-me reanimar um pouco. Se eu pudesse tê-lo mais vezes junto de mim, seria mais suave a minha cruz, não me custaria tanto viver. Não vejo nada, tudo se esconde de mim. Por mais que me esforce por fazer tudo bem feito e amar muito a Jesus, cada vez me vejo mais pobrezinha e despida de tudo. Quando peço a Nosso Senhor para ser muito santa, para O amar muito, muito, que abismo de misérias eu vejo em mim e que distância tão grande me separa de Nosso Senhor!
            Não sei se o paizinho se lembra de o ano passado, no dia da Santíssima Trindade, Nosso Senhor me dizer: “Não assistes a esta festa, mas assistirás a todas as outras por toda a eternidade”. A minha ideia é, se nesse dia já estarei no céu. Mas, não sei os desígnios de Nosso Senhor.
            O que eu sei dizer é que o demónio continua a desempenhar bem o seu papel: busca todos os meios para me ter desassossegada — como eu me vi aflita com ele no sábado passado! Estou em dizer que ataque dele assim tão forte, nunca tinha tido! Principiou por dizer que tinha chegado o tempo de serem descobertas as minhas mentiras, que se ia saber a verdade, porque eu não ia morrer no tempo indicado.
— Mata-te! Escuta-me! Escolho-te uma morte que nada te custa; se não, que vergonha! Se era comigo!
            E dava umas fortes gargalhadas.
— Queres que te ensine a fazer pecados?
            Até aqui ainda fui resistindo. Mas, depois, muito me custou. Tinha bocados em que não podia tirar os lábios do crucifixo, nem da minha mente me saía a jaculatória "Jesus, Maria, José". Chamou-me um nome e perguntou se eu sabia o que era.
— Escuta-me que eu ensino-te.
            Eu dizia: "Meu Deus, meu Deus, não quero pecar. Ó meu Jesus, eu não quero ofender-vos. Minha Mãe, minha querida Mãezinha do céu, não permitais que ofenda a Jesus!" E, graças a Nosso Senhor e a Nossa Senhora, fiquei sem saber as lições desse maldito. Depois de tudo isto, dizia-me: não é ninguém que te diz estas coisas, mas sim a tua malícia. Eu confessei-me, mas não disse isto. Não fiz pecado, pois não?
            Não digo mais nada, que estou muito cansada. Tenho o meu corpo numa dor só. Lembranças de minha mãe, da Deolinda e da Sra. Dª Sãozinha. Abençoe, por caridade, a pobre,
            Alexandrina.

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