18 de julho de 2011

QUE SEDE ARDENTE !

Ó Jesus, a vós me entrego, para ser sempre Vossa vítima

O demónio, o maldito demónio não perde ocasião nem tempo; quer levar-me ao desespero e a ansiar pelas consolações, gozos e alegrias. Tenta pôr-me ódio ao sofrimento, encher-me de dúvidas, e mostra-me a minha vida perdida. O que seria de mim, se, por um só momento, Jesus me abandonasse, e perdesse a confiança Nele. Que luta sem fim; que luta tão só; que luta tão cheia de medos de tudo e de todos. Ó Jesus, a vós me entrego, para ser sempre Vossa vítima. Quando me vêm novas contrariedades, novos espinhos, mais dou a Jesus os meus abraços, beijos e carícias. É um dar sem dar, é um viver sem viver. Seja pelo Seu amor.
Na tarde de ontem, o meu coração sentiu, a minha alma viu uma lança que o feria, que o trespassava, e todas as mãos humanas opunham violência a essa lança para ela mais violentamente o ferir e o coração mais sangrar. Assim segui o caminho do Horto, ainda mais com a dor da separação de Jesus e da Mãezinha. Se soubesse dizer o que sofreram aqueles dois Corações com aquela separação, ao saberem, um e outro o que iam sofrer! Eles separam-se, mas a dor e o amor ficaram em união um com o outro. Naquele Horto triste, foi o meu corpo que serviu de cálice cheio de amargura para apresentar a Jesus, e foi ele ainda que lhe serviu de cruz para o Seu corpo divino, e, dentro em mim, Ele encheu o cálice do Seu preciosíssimo Sangue, sangue que corria do Seu coração aberto. Depois disto, senti no meu rosto o rosto de Jesus, a suar sangue, e sentia-O inclinar-se sobre mim, desfalecido na Sua tormentosa agonia.
Hoje subi o Calvário, desfalecida, abrasada em sede. O meu corpo maltratado morria, mas a sede do coração, a sede de morrer, a sede de abrir o Céu, para fazer aparecer e brilhar o sol nas almas, sabia, aumentava, vivia mais, quanto mais se aproximava o Calvário e o momento de dar a vida; sede insuportável, sede indizível, sede que não era minha. E foi no Calvário esta sede até ao último momento a vida de todo o meu sofrer. Com o rasgar das chagas sentia os nervos encolherem-se, o corpo gelar, os olhos cerrarem-se e a cabeça inclinar-se; estava moribunda, ou para dizer melhor, estava moribundo Jesus. E foi ainda a mesma sede que revestiu de vida o Seu brado e o fez subir ao Pai. Nos últimos momentos de vida, dos olhos moribundos de Jesus brotaram ainda algumas lágrimas, por sentir e ver os últimos impulsos e crueldades feitas pelos homens, pela maldade humana, ao Seu Santíssimo Corpo agonizante. A sede do Seu divino Coração avivou mais, voou ao alto, ia a entrar no Céu ao encontro do Pai, enquanto o corpo morria. Que sede ardente, mas tão doce era a de Jesus!...Eu com Ele tive sede, com Ele subi, com Ele expirei. Ele expirou, para pouco depois viver e fazer-me viver a mim e falar-me:
― Minha filha, vem, vem, entra; está aberto, de par em par, o Meu Divino Coração; entra, não temas o fogo que o cerca; é amor que vivifica, é amor no qual eu quero purificar o teu, é amor que te dá a vida. Entra; vem alimentar a tua alma, enfraquecida pelo sofrimento; vem, descansa em Mim, suaviza a dor do teu corpo.
—o—
(Beata Alexandrina Maria da Costa: Sentimentos da alma, 14 de Março de 1947 - Sexta-feira

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